A Invenção de Hugo Cabret (2011, Martin Scorsese)

O sonho do exercício da celebração

Em seus primeiros segundos A Invenção de Hugo Cabret resume seu espírito e a sua filosofia: um olhar sobre as luzes e movimentos da noite parisiense que se funde com os precisos mecanismos de um dos relógios que o protagonista do filme, Hugo (Asa Butterfield), cuida. A vida, sugere Scorsese, é uma máquina de altíssima precisão onde toda peça cumpre sua função essencial: ser a razão e o sonho – os irmãos Lumière e Georges Méliès, respectivamente. Em Viagem à Lua (Le voyage dans la lune, 1902), Méliès inaugurou a Magia do Cinema: um relato fantástico onde o tempo da imagem revela o impossível como uma perfeita realização visual. A aventura da viagem ao desconhecido serve também como metáfora da saudade humana por conquistar o desejo, aquilo que pulsa desde o proibido, embora ela seja protegida por insubornáveis forças na forma de homenzinhos com espadas e tridentes. Não é de se espantar que Scorsese – um dos vanguardistas da American Zoetrope no fim da década de 1960 – tenha se animado em filmar em 3D, homenageando a primeira grande aventura cinematográfica de todos os tempos.

Emerge então a dialética benjaminiana: a imagem que ao projetar o passado nos é retornada como molde propício – aquilo que deverá ser – da imagem-presente. Porque ao representar-mostrar esse retorno ao passado, e saber que ele nunca voltará a ser como era (nem mesmo quando representado no presente em uma obra como Hugo enquanto narrativa, nem na perspectiva futurística do advento do 3D no filme), Scorsese comete o maior de seus equívocos dentro da película: transformá-la num ato pseudo-idêntico da rememoração (Eingedenken) daquele passado que lhe foi tão caro – pois o passado no ressurgir do seu presente em Hugo é outro, ainda que semelhante a si mesmo, o que remete a uma certa distorção da “verdadeira história” contada pelo cineasta americano. Grosso modo: Scorsese não parece estar preocupado com as veracidades dos fantasmas da memória do cinema, a não ser para degolá-los ao seu bel prazer e para edulcorar aquela história não-oficial da história do cinema: há relatos, desconfianças, incertezas, mas ao fim, aquele período no qual o filme de Scorsese tenta relatar estará sempre muito mais próximo da névoa do que do cimento.

E é claro que Martin Scorsese ama a sétima arte. E esse amor – como todo amor uníssono que constitui os melhores amantes – é ratificado com uma obsessão generosa, incapaz da mínima banalidade ao objeto amado. E é justamente nessa tradição de certo setor da cinefilia que o filme tenta sobreviver às mais variadas visões através do amor. O amor, não como ato criador, mas como oclusão do futuro em vista do fetichismo a um amuleto qualquer perdido no tempo, neste caso, a marca do autor de Georges Méliès. Talvez aí resida esse outro amor que a crítica disponibilizou ao filme: instantaneamente ela se enamorou destes museus de carne viva nos palácios cinematográficos – algo semelhante ocorreu com O Artista (The Artist, 2011), de Michel Hazanavicius. Mas nesse ponto de encontro – entre o que transmite Scorsese e o que capta a crítica – que abusa do óbvio, é possível distinguir um outro problema: A Invenção de Hugo Cabret se agarra a essa esperança (do amor que legitimará tudo, inclusive seus equívocos como farda sagrada do cinema) como se tratasse de um carbono arqueológico da paixão irredutível pelo exercício imagético: por tratar de uma das mais longínquas memórias do cinema, então, o filme de Scorsese prontamente parece estar acima do olhar desafiador alcançando assim o Olimpo de sua projeção: a de ser uma “carta de amor ao cinema” (bleh!) e como tal, objeto que flutua por sobre todas as percepções cinematográficas. Ele, o cinema, não necessita de celebradores, mas de filmes que o celebrem – talvez por isso Caminhos Perigosos (Mean Streets, 1973) ou Taxi Driver (1976), com suas tantas dimensões e seus fílmicos granulados, consigam sintetizar duas experiências muito mais avassaladoras e vibrantes do que esse elaborado artefato da era digital estereoscópica.

Ricardo Lessa Filho

Abril de 2012


ISSN 2238-5290