J. Edgar (2011, Clint Eastwood)

Dois movimentos:

1) dessa câmera que se distancia do corpo morto, em Gran Torino, uma reverência ao que de heroico e belo há no finito, ao que respeitamos da abertura que o humano impõe; um recuo que conserva, movimento que embalsama não apenas a perpetuidade de um ator-cânone, mas contorna todo um cinema que se completa, que fecha um ciclo de dor e entrega-se à indefinição — pois se uma pergunta era permitida após este filme era “do que mais Clint Eastwood será capaz a partir daqui?”

2) dessa câmera que se aproxima do corpo morto, em J. Edgar, uma profanação a ressaltar o que de grotesco há no encerramento das coisas, aquilo que disfarçamos na hipocrisia de enlutados rituais não mais permitidos; um dar a ver que não se apieda, que desnuda, violenta, agoniza tardiamente a dor que fora sofrida longe das telas, mas permanece latente, confirmando um cinema que se reabre à dor, à dúvida, e que cruelmente nos leva a indagar: “afinal, do que Clint Eastwood não será capaz a partir daqui?”

O derradeiro ato de J.Edgar não apenas retoma um gancho deixado por Eastwood em 2008, como supera toda uma expiação desenvolvida pelo diretor, filme a filme, pelo menos desde Sobre Meninos e Lobos (2003). O corpo sem vida do protagonista (Leonardo DiCaprio), ao final de J. Edgar, materializa toda carnalidade que o decorrer da trama aparenta esconder. Luz e sombra que fingem, trabalho dos mais negros (noir) que o cinema a cores já concebeu, vem de sua exposição todo o contraste devido, a urgência avessa de uma biografia, pois nada mais que uma grafia da morte. No visceral plano sobre o cadáver de Edgar a claridade ganha forma, abandonamos a escuridão que outrora fez o cinema para compreender que também de luz se faz um sepulcro, uma imagem.

Se Clint Eastwood hoje assina uma das filmografias que melhor resistem ao tempo e fazem dele (o tempo) motivo simultâneo de aliança e resistência, é porque ele personaliza um cinema que não se importa em destruir aquilo em que de pacífico se assenta. Cada um de seus filmes abraça o gênero para feri-lo pelas costas, rende-se ao clássico para lhe aplicar uma rasteira; são engodos que desorientam a crítica (cada dia mais equivocada em querer explicar a impressão de ‘filme menor’ ironicamente assumida pelo próprio diretor), o público (e talvez nenhum filme de Clint se importe menos com isso do que J. Edgar) e a concepção rastejante de cinematógrafo que ainda mantemos no séc. XXI. Não por acaso, o diálogo mais promissor que este trabalho pode ter, no atual contexto do audiovisual, vem da TV: Mildred Pierce (2011) talvez seja a única referência possível, de fato, ao que J. Edgar se propõe a encenar.

Assim como Todd Haynes nos obrigou a perguntar ‘qual o lugar do cinema?’, jogando sua personagem contra o espelho da sociedade e das mídias, Clint leva-nos a refletir sobre todo o lugar que ainda resta para a ficção, no e do cinema, numa geração que pensa ter retirado suas máscaras (sociais, éticas, imagéticas) quando apenas recobriu-as com níveis de ilusão alheios ao ato de representar e expurgar o corrosivo mal que já lhe penetrou a pele. As cenas de J. Edgar em que o protagonista se encontra no quarto da mãe, são as que mais importam para uma compreensão do valor e potência que este filme agrega, no sentido de assumir-se um exercício do tempo falsificado, derrotado pela verdade perdida, pelo que no mundo físico algemou-se ao passado, e não mais se pode re(con)stituir.

Espaço próprio da invenção (o do útero), é neste cômodo que Edgar sempre encontrará um espelho, seja com o reflexo de seu corpo ao lado da mãe (Judi Dench), seja no desesperado gesto de imitá-la após sua morte, travestindo-se de uma pulsão (hitchcockiana) que subsiste como única forma de aceitação do fim. Diante do homem que se faz mãe, vencido pela imagem — cena do ano para nosso circuito de exibição, cena de uma vida para Eastwood —, fica a força de uma experiência que afunda o tempo de um século numa mise en scène de trevas, onde não há moral, sexo ou corpo em que sobreviva a estabilidade. É próprio do útero este desdobrar do humano, esta flutuação do espaço, toda a escuridão. J. Edgar é o filme em que Clint Eastwood filma a morte para fazer com que o cinema nasça, e a partir daqui, não precisamos temer o amanhã. Pois, com Clint, tudo ainda está por vir.

Fernando Mendonça

Abril de 2012


ISSN 2238-5290