Le Franc (1994, Djibril Diop Mambéty)

Como ilustra uma afirmação do imaginário africano: quando uma história termina de ser contada ela cai no oceano. É para o mar que voltam as águas, que fluem os rios das narrativas ancestrais, daquilo que se espalha e ganha o mundo, do que anseia por novos horizontes. É no mar que o filme Le Franc termina, encerrando não um limite de metragem, mas desaguando uma reabertura de sentido a tudo que os quarenta e poucos minutos de projeção provocaram no olhar espectador. Não poderia ser outro lugar. O mar, espaço já consagrado por filmes anteriores de Mambéty como um domínio de identificação para o que nos vai no corpo e na alma — como esquecer as cenas de amor em Touki Bouki (1973), protagonizadas tão somente pelas águas? —, reorienta cada uma das sensações experimentadas em Le Franc, filme de percepção extrema, força que beira a abstração.

Não há movimento mais abstrato do que aquele provocado pelo oceano, em suas ondas, seus ruídos naturais, no encontro milagroso que ele marca com o céu. Abstrato como Le Franc é. Movimento dos mais intensos dentro da carreira de Mambéty, eis um filme que é vento, que é música, que é sonho em estado puro, libertador. Primeiro trabalho de um projeto originalmente traçado para tornar-se trilogia (prosseguido por La Petite Vendeuse de Soleil, 1999, e interrompido pela morte de Mambéty), Le Franc dá bom exemplo do que o autor pretendia ao focar as pequenas pessoas, os pequenos gestos da vida, visando “preservar o que é essencial de si mesmo” (palavras do diretor). O filme comprova um interesse pela simplicidade que sempre fora presente em Mambéty, mas que muitas vezes foi sombreado pelo complexo jogo de invenções, pela opacidade empenhada em todos os títulos ao irem contra as expectativas lineares de nossa compreensão narrativa.

Se Le Franc não atenua o estranhamento provocado em cada corte, sobreposição, sonoridade ou enquadramento, ele também não deixa de ser o exercício de leveza, dos mais radicais, ofertado como ponte da imagem para os sentidos, que mais longe vai na desconstrução do olhar. É porque Mambéty sempre defendeu um cinema do sonho, uma lógica do onírico, que identificamos em Le Franc o interesse de desapegar-se das amarras da razão, daquilo que se justifica ou explica para além da obra em si. Desde Contras’ City (1969) podia ser percebido um cinema profundamente rítmico, melódico, mas é em Le Franc que o trabalho de Mambéty explicitamente assume o pacto com o musical, único gênero possível para o que sua forma realiza. Entre os sussurros cantarolados pelos atores e os acordes dos instrumentos que tomam as cenas, define-se um trabalho que de fato explora a métrica cinematográfica à luz da música — algo semelhante ao que fora teorizado por Eisenstein, não por acaso, nome referência aos que hoje interpretam Mambéty.

Mas um pouco de história, para não perdermos o mar: Le Franc nos apresenta Marigo, um músico pobre que não consegue pagar o aluguel de sua habitação; enxotado pela senhoria, leva consigo a porta de seu antigo quarto, onde colou um bilhete que descobre premiado na loteria — prêmio de uma moeda sem nenhum valor, o que não interrompe a satisfação de Marigo. Atravessa a cidade com a porta nas costas, pra cima e pra baixo, até que imagina a possibilidade de desgrudar o bilhete da madeira com o contato das águas marinhas. Não poderia ser mais inocente, ir mais longe na ingenuidade o personagem comum de Mambéty, diretor que sempre procurou o comum no marginalizado, nos seres que não se encaixam ou adaptam ao sistema dominante. Marigo (Dieye Ma Dieye) é a alegria despreocupada, a confiança no amanhã, o gozo do tempo presente. Nele se encontram cada um dos personagens delineados pela filmografia do diretor, seres em fuga, impressões de realidades que não exigem os fatos do mundo, que desconhecem os vínculos, e que se tornam reais por não traírem o que lhes vai na alma.

Quando questionado sobre a importância do cinema africano, Mambéty afirmou ser papel de sua nação reinventar o cinema enquanto linguagem. À sua maneira, Mambéty reinventa não apenas o caráter narrativo, mais evidente, nos filmes que realiza; ele reinventa a felicidade, o prazer de acordar e saber que no dia pela frente tudo se fará novo, todos os sonhos poderão ganhar forma. Aquilo que o distingue de outros diretores (de seu continente, do mundo) é esse romper da ilusão, o contrato com uma perspectiva sempre positiva, ainda que em contraste com o que os áridos espaços geográficos e sociais denotam. Um olhar de infante, de crente, de esperança no que se não vê mas sente e, com isso, encarna todo um cinema do confronto. Le Franc, filme (en)cantado, é o perfeito acorde de uma carreira que soube atualizar as dores do mundo, que encontrou o descanso urgente, e através dos sons e das cores comprovou que na aceitação do sonho toda sobrevivência é possível.

Fernando Mendonça


ISSN 2238-5290