Hyènes (1992, Djibril Diop Mambéty)

A loucura do poder

Em Hyènes, Djibril Diop Mambéty volta (após quase duas décadas sem fazer um longa-metragem) mais reivindicativo, mais impaciente diante de uma África empobrecida pela corrupção, roída por dentro por dirigentes obscuros. A câmera é mais interrogativa, a intriga é mais mordaz, a denúncia é mais acusadora. O cineasta senegalês lança olhares distantes, acompanhados de sorrisos sarcásticos para seus compatriotas. Hyènes vergasta as “hienas” da situação pós-colonial, plasma seus costumes e documenta sua falsidade. É uma obra de antropologia política cinematográfica: um filme que, apesar da magnitude de suas imagens e da trilha sonora, oferece ao espectador (africano, latino, do mundo) um quadro alarmante do empobrecimento material e moral que castiga todo o continente africano.

Um homem e uma mulher de idade avançadas que cresceram juntos em Colobane e tiveram um romance, voltam a se encontrar depois de muitos anos. Dramaan Drameh, o homem, se surpreende quando sua ex-amante reaparece. Linguère Ramatou, ao contrário, tinha planejado regressar desde o dia que a obrigaram a deixar a pequena cidade ao ficar grávida de Dramaan, já que este não quis reconhecer sua paternidade. No “exílio”, Ramatou vive em países onde os rumores se desmentem mediante a palavra escrita. A outra vida que leva no ventre apenas vive um ano. Está (de novo) sozinha, corre toda Europa, muda frequentemente de direção, se prostitui em todas as grandes cidades do velho continente. O avião em que viajava cai e ela é a única sobrevivente entre os cem passageiros. Mais tarde, dirá que tem uma vida “tenaz”. Passam anos de litígio até que receba a indenização da companhia aérea e fique “mais rica do que o Banco Mundial”. Decide, então, retornar à Colobane e levar seu apelido de estigmas fossilizados na memória popular. Para conseguir isso, pede a cabeça de seu antigo amante em troca de uma fortuna para os habitantes de Colobane. Ramatou é uma Anta (de Touki Bouki, 1973) em potencial. Foi vítima sexual de um homem, ficou rica e por isso tenta destruir o espírito, o corpo e qualquer vestígio de herança de seus antigos carrascos. Cada um desses, em Colobane, vive o acontecimento como uma fonte de pesadelos.

Drameh é realista. A princípio, implora a Ramatou que poupe a sua vida antes de exigir a proteção das autoridades. Farto, acaba por aceitar sua sorte e adquire uma força que aterroriza seus interlocutores. Apoiada por sua fortuna e animada por uma profunda sede de vingança, Ramatou impõe a Colobane os interlocutores que mais a convém. A pequena cidade que deixou a rainha da Inglaterra maravilhada, já não existe mais. Não há nada sagrado; nem a honra dos anos passados, nem o respeito pela dignidade humana. A pobreza e a mentalidade de subsídio reduziu seus habitantes a se comportarem como escravos dispostos a se oferecerem ao primeiro que passar. Os políticos da cidade se converteram em marionetes que não hesitam em se inclinarem diante do poder do dinheiro; seus filhos se transformaram em aprendizes de mendigos. O “desafio” que lança Ramatou não deixa nada nem ninguém indiferente. Interessa aos ingleses e a mesquita, aos marginalizados e aos homens políticos, aos intelectuais e aos analfabetos. Porém, aparentemente, o “desafio” ficará sem resposta.

Ao início e ao seu fim, a marcha locomotiva pausada do filme desemboca em marcha lenta e silenciosa dos mendigos, das vítimas dos parasitas como o prefeito, Linguère Ramatou e o chefe de protocolo. Também sofrem as intempéries e se esforçam em sobreviver diante da globalização depredadora. E se protegem, especialmente Dramaan Drameh. A loucura os esconde. O tempo é somente o maltrato da idade, das doenças. São personagens atrevidos: não vacilam na hora de diminuir o prefeito. São personagens aguerridos que sabem manusear o gládio, a navalha. E igual a todos os protagonistas dos filmes de Mambéty, são solitários. Sempre estão presentes nas reuniões políticas, ainda que pouco façam parte da multidão. Aplaudem cada vez que o político acaba uma frase. São testemunhas ao ponto de se transformarem em atores. Escutam com atenção quando Dramaan é promovido a prefeito e promete ajudar a todos na cidade. Observam o silêncio no rosto do prefeito e a indiferença das mulheres frente a inesquecível chantagem de Ramatou. Trocam sussurros quando a anciã afirma em voz alta que “a partir de agora tudo poderá ser comprado em Colobane”. Eles sabem que são marginalizados e, de momento, não colocam essa condição à luz do juízo. Sabem que, no fundo, essas retomadas estruturais não passam de momentos mitológicos, de espasmos mentirosos de uma realidade que não dobra para nada, duma realidade afogada pela miséria do cotidiano, da vida que se prende e se queima sob o sol. Hyènes é um filme onde Mambéty traduz o sonho menos abstrato do africano: essa “vida de verdade” do continente, sublinhadamente Senegal, que confere um status nada misericordioso à sua população, senão, a transforma em zumbis do dinheiro, do poder. Como disse o próprio cineasta, Hyènes é um filme sobre “a loucura do poder”.

Ricardo Lessa Filho


ISSN 2238-5290