A Vida, De Vez em Quando

São poucos filmes pra assistir, quase nada para ler a respeito, pouca gente com quem conversar sobre… Aventurar-se no diretor Djibril Diop Mambéty é como confinar-se numa pseudo-solidão, num estado da cinefilia que reorienta o hábito em sentido introspectivo, incontornável. Atravesso cada um de seus sete filmes sabendo que, apesar de participante de uma edição crítica para o presente site, dedicar-me-ei a reflexões que talvez não ultrapassem os meninos da equipe. De alguma forma, assinar textos que talvez não sejam lidos pode ser a melhor maneira de aproximar-me de Mambéty, um diretor que provavelmente concluiu alguns filmes sem a certeza de que seria visto por alguém.

Ele filmava pelo prazer. Coisa evidente pela simples observação de sua carreira, profissional que oscilava entre os mais diversos níveis de expressão artística e não se importava em retribuir qualquer tipo de expectativa por parte de público ou admiração crítica. Como ele expressou humildemente quando de seu retorno às telas, no início dos anos 90: “De vez em quando eu quero fazer um filme, mas eu não sou um cineasta, eu nunca fui um cineasta.” E talvez venha daí meu espanto. O que me faz aceitar cada um de seus filmes como um sopro de vida involuntário, um feliz acidente do universo. Como se descobrir este cinema enquanto opção — filmado quando dá vontade, de vez em quando — fosse também encontrar uma vida que prossegue pelo simples querer.

Então como escrever sobre o cinema de um não-cineasta? Como fazer valer um olhar que não pede a validade? Quanto mais fundo vou em seus filmes, quanto mais reluto em identificar a autoria que pulsa (na verdade, lateja) neles, mais questiono minha própria maneira de enxergar o cinema. Até que ponto nossa educação sentimental cinéfila se enrijeceu em normas de consumo que já não flexionam a abertura do primeiro amor? Como receber Mambéty num panteão de autores fetichizados pela história? Como desmistificar um cânone? Vou percorrendo filmes, entrevistas, relatos de amigos desconhecidos e chegando ao lugar nenhum que o próprio Mambéty pretendeu para mim. Esse deserto que se abre à frente, que se faz único caminho e diante do qual seu cinema grita. De vez em quando eu escrevo sobre um filme, mas eu não sou um crítico, eu nunca fui um crítico. Não passo de alguém procurando em filmes a vida, de vez em quando.


Fernando Mendonça


ISSN 2238-5290