Medianeras: Buenos Aires na Era do Amor Virtual (2011, Gustavo Taretta)

O fantasma e o verbo

Quando a imagem ao escorrer sobre si mesma se auto-desvenda, a forma do filme “incomunicável” nos é revelada como eflúvia: o texto ou diálogo se resume à proporção das emanações do silêncio não-dilatado, isso é, a imagem por – e sobre – si que remete aquele texto à (sua) origem mais íntima: a imagem que é projetada, portanto, aniquila o diálogo do verbo – o verbalizar é antes de tudo um fator corpóreo: corpos (óbvio) que terão (teriam) de preencher o vazio do diálogo do verbo na metamorfose entre o corpo, imagem e os fantasmas (do verbo). Fantasmas, aliás, que irão se apropriar de Medianeras: pela oblíqua noção do não-comunicável e do virtual a catástrofe fantasmagórica é alçada à condição de eterna: na diegese, então, o fantasmagórico se torna alçapão da distância. É ele, sempre, que irá proibir que os corpos constituam uma relação, um aproximamento que humanize aqueles personagens solitários, encubados em monoambientes, contorcidos por corpos desprovidos de alongamentos (por isso os protagonistas quase que de forma desesperada, querem se matricular na natação: alongar-se é a primeira instância da liberdade desse corpo).

Para Mariana (Pilar López de Ayala) a condição de se fechar (às pessoas, aos lugares, a um outro corpo) é valimento fantasma: do fim de seu relacionamento de quatro anos (que talvez seja o seu fantasma mais temeroso, ao que na tentativa de extingui-lo – de forma essencialmente virtual através do ato de deletar as centenas de fotos no computador desse antigo relacionamento), transforma-o em assombração constante da mente: saudade daquele outro corpo não mais presente, portanto, extinto, morto. Fantasma que só atua enquanto houver o desamparo da alma (salus aeterna para quê?): na figura de “Onde está o Wally?”, a ausência do outro, o corpo que (efetivamente) não será encontrado: não é permitido justificar o corpo enquanto propriedade “real”, pois, em Medianeras ele, também, será propriedade “fantasmística” – não ousará, nunca, manter relações, mas antes evaporar sem deixar rastros, pegadas. A ausência de uma outra vida para acompanhar a sua, a faz entrar nos pântanos da solidão profunda – essa espécie de loucura, como disse Foucault, esse limite inferior da verdade humana –, ao manter relações sexuais com um dos manequins estáticos encontrados em seu apartamento: um corpo que, sem vida, sem verbo, não potencializará nada além do espectro contínuo daquela solidão.

A “essência do homem”, de fato, o verbo, é introduzido com a mais infeliz das boas intenções aqui: ora, se Meridianeras diz ser um filme sobre a “incomunicabilidade de nosso tempo” (a internet; os prédios que deixam seus habitantes mais longe do solo, da suposta “vida real”; do modus operandi do workaholic, etc), porque verbalizar imagens que se transformam em si mesmas como reflexo (fantasma?) dessa impossibilidade? Essa necessidade esmagadora de sobrepor o verbo ao significante imagético: a imagem tendo seu signo reduzido, sendo condicionada por uma verborragia existencial capenga, croma, artefato do medo do diretor Gustavo Taretto em potencializar aquilo que está em movimento pelo sentido do (in)comunicável – na vera, pelo sentido da imagem ativa (ou morta), mas sempre sem diluir a dimensão que a forma-plano tem de conceber nos sentidos do cinema.

É no sentido da redundância que um filme sobre a “incomunicabilidade” fala tanto sobre coisas que já estão sobre a imagem. Verbalizar (de forma óbvia) a incomunicabilidade é uma forma de prazer medíocre, de surpreender (a narrativa), mas também de ofuscar (a imagem). Prazer ocasionado pelo estímulo de “mudança” do cinema atual (em boa parte uma das grandes farsas de nosso tempo), pela metamorfose das formas – e do próprio tempo –, da ausência de si e dos outros (corpos).

Ricardo Lessa Filho

Maio de 2012


ISSN 2238-5290