Jovens Adultos (2011, Jason Reitman)

Desde que a imagem acima começou a ser veiculada para a divulgação do novo filme de Jason Reitman, vários amigos leitores identificaram uma possível relação de Jovens Adultos com o que refleti num artigo para este mesmo site — a leitura do mesmo é recomendável para se prosseguir nesta crítica. A evidente semelhança do gesto executado por Charlize Theron com as imagens que me impulsionaram à escrita daquele texto, tudo indicava, não poderia ser mera coincidência, mas sim um novo desdobramento do que o gesto comum possibilitara a partir de uma série de conexões entre a condição do drama no cinema contemporâneo e o ato de maquiar-se frente ao espelho/câmera. Lançado o título nos cinemas, claro que fui tocá-lo com uma expectativa particular, para nele confirmar algumas (poucas) interseções e outras (muitas) variações ao que anteriormente refletira a partir daquela trinca de filmes.

Se em Jovens Adultos, a atriz principal também desponta como um núcleo indispensável de unidade ao filme, imprimindo em seu corpo a memória de um cinema (ainda que em menor escala, comparada à Isabelle, Nicole ou Juliette), não é possível dizer muito sobre o papel de Jason Reitman na configuração que este dá ao ‘lugar do gênero, ao direcionamento narrativo e à reposição dramática’ em seu filme, para ficarmos em termos utilizados quando da análise anterior. Tais preocupações não podem ser identificadas como a tônica de seu trabalho — seja neste título, seja em sua filmografia —, isto é o que, acima de tudo, impede-nos de encaixá-lo na mesma linha de questionamentos que os filmes de Denis, Cameron Mitchell e Kiarostami nos levaram. É também o que sedimenta o lugar comum de Reitman (por favor, eu preciso mesmo citar a roteirista?) dentro do cenário americano de produção: uma assinatura com falsos traços de estilo independente, absolutamente submissa aos códigos já estipulados para certo nicho de consumo cinéfilo que, apesar de distinto ao que há de mais comercial e massivo no sistema, não oferece grandes deslocamentos em seu jeito over de ser.

A própria imagem de Charlize ao espelho constata a diferença no tratamento que Jovens Adultos confere ao dramático, se a relacionarmos com aquelas que outrora nos guiaram. Em Minha Terra África, Reencontrando a Felicidade e Cópia Fiel, o passar de batom era o último dos atos esperados para suas protagonistas; aqui, ele é o mais previsível dos eventos, o único ato possível para uma mulher que em si abriga toda uma identidade falsa, recoberta por uma pele de ficção que ela mesma criou e já não pode despir (ou talvez chegue perto disso na curiosa experiência sexual que vivencia em determinado momento do enredo). O que realmente distingue o trabalho de Reitman daqueles filmes é o tempo que o drama encontra para representação. Aqui, o caráter pós-dramático não é permitido à atriz; pelo contrário, todo o delineamento e interpretação por ela conferidos (ainda que muito dignos para a carreira pessoal de Charlize), não passam de mais uma acentuação do drama em tempo presente, devidamente calculado e manipulado para a obtenção de um clímax e toda uma progressão típica ao cinema narrativo como bem o entendemos e digerimos.

Todas as cenas com Charlize ao espelho e as incontáveis repetições que vemos de seu cuidado com a pele, o cabelo, as unhas, o figurino, não são mais do que um reflexo deste cinema de símbolos; códigos que não liberam o espectador ao encontro de uma erótica própria, que delimitam cada gesto dentro de um planejamento explícito em suas intenções (ficamos à espera da grande cena com Charlize em lágrimas e ela prontamente nos é dada na hora mais apropriada). E sabendo ser este um drama já visto, uma maquiagem já feita, pouco fica da experiência além do desejo por um novo ‘detalhe eleito’, um novo amor para os olhos. Pois reconheço, talvez seja eu quem simplesmente não ame Charlize como deveria.

Fernando Mendonça

Maio de 2012


ISSN 2238-5290