Micrômegas: um gigante na Terra

Nota: O texto abaixo, como o postado anteriormente, também foi resultado de uma produção acadêmica realizada lá pelo início do meu curso de Psicologia (com alguns acréscimos após uma releitura). Não temos o cinema explicitado em suas linhas, mas penso que as idéias propostas podem nos fazer pensá-lo através de certos prismas. Boa leitura!

Na obra “Contos”, Voltaire relata, em sete partes, a história de Micrômegas, um jovem de oito léguas de altura, habitante do país de Sírio e dono de um dos espíritos mais cultivados que existe. Era um sábio, conhecia muitas coisas, inventou outras. Produziu um livro bastante curioso, que lhe trouxe contrariedades, pois o “mufti”, um sujeito ignorante de seu país, considerou o livro como possuindo proposições suspeitas que pareciam heresias, e assim o perseguiu, fazendo com que o livro fosse condenado e Micrômegas afastado de seu país.

Diante dessa situação, pôs-se a viajar pelos planetas para formar o espírito e o coração. Em pouco tempo percorreu a Via Láctea até parar no globo de Saturno. Quando chegou, espantou-se pela pequenez de seus habitantes com suas mil toesas de altura, porém, por ter espírito justo, compreendeu que uma criatura não poderia ser menos significante apenas pela altura. Lá, fez estreita amizade com o Secretário da Academia de Saturno, outro homem de grande espírito, com quem teve longas conversas. Em uma delas comentavam sobre a variedade da natureza, sobre a transitoriedade da vida e de como os seres nunca estão satisfeitos com o que têm, mesmo já tendo muito ou o suficiente do que precisam. Depois das trocas de informações, resolveram fazer uma viagem filosófica; saltaram sobre o anel, foram de lua em lua, lançaram-se sobre um cometa, toparam com um satélite de Júpiter, passaram por Marte e nada encontraram de tão interessante até avistarem um clarão: era a Terra! Lá chegaram no dia 5 de Julho de 1737, pelo mar Báltico.

Depois de terem repousado, quiseram fazer um reconhecimento daquele pequeno país. Deram a volta ao mundo em 36 horas, fizeram de tudo para descobrir se o globo era habitado ou não, mas seus olhos e suas grandes mãos não eram proporcionais ao tamanho daqueles que lá viviam. O anão, que às vezes se precipitava, concluiu logo que não havia habitantes, que ninguém de bom senso viveria em um globo tão mal construído, com charcos (oceanos) sem formas regulares e com seus pólos achatados sem girar de forma adequada em torno do sol. Micrômegas, no calor da discussão com o seu amigo, rompeu seu colar deixando cair no chão as lindas pedras que possuía. Ao se abaixar para apanhá-las, o anão notou que as mesmas constituíam excelentes microscópios, os quais iriam ajudar muito na busca dos habitantes da Terra.

A princípio nada perceberam, mas logo o habitante de Saturno viu algo que se movia à superfície do mar Báltico: era uma baleia. Mais uma vez o saturniano se precipitou e logo imaginou que o Globo era apenas habitado por baleias, até que, com o auxílio do microscópio, perceberam algo mais grosso que uma baleia flutuando sobre o mar: era um navio. Micrômegas o apanhou com todo jeito e o pôs na unha para poder examiná-lo melhor. Os passageiros, supondo terem sido erguidos por um furacão, julgaram estar sobre um rochedo, puseram-se todos em movimento, tanto fizeram que Micrômegas sentiu que alguma coisa comichava-lhe os dedos. Ao perceber aqueles átomos, ficou maravilhado com os movimentos e operações que faziam; viu, também, que aqueles átomos falavam entre si. Já seu amigo não quis acreditar, achava um absurdo que aquelas criaturas imperceptíveis pudessem ter órgãos da voz, duvidava até de possuírem uma alma!

Mas o sábio Micrômegas, tirando do bolso uma tesourinha, cortou as unhas e com uma lasca fabricou uma trompa acústica, que era como um vasto funil, cuja boca envolvia o navio. Em pouco tempo conseguiu ouvir e compreender a língua e assim tentaram, com cuidado para não os ensurdecer, iniciar uma conversa. O espanto dos passageiros foi geral, não podiam adivinhar de onde partia aquele barulho.

Na segunda tentativa, o anão, que tinha uma voz mais suave, informou-lhes quem eram, contou-lhes desde a partida de Saturno e, por fim, perguntou-lhes suas condições e características, entre elas, se possuíam alma. Um dos passageiros, chocado de que duvidassem da existência de suas almas, respondeu com tamanha inteligência que surpreendeu aos dois visitantes, fazendo-os reconhecer que não deviam julgar por sua pequeneza aparente. Após tal reconhecimento, a conversa, pouco a pouco, se tornava interessante. Em meio ao diálogo, Micrômegas julgou aquele lugar o possuidor da verdadeira felicidade, uma vez que aqueles do barco tinham espírito puro e passavam a vida a amar, porém, a resposta não foi a esperada: um dos filósofos confessou que poucos pertenciam a esse grupo, o resto era de loucos, maus e infelizes, uns praticavam massacres e outros eram massacrados.

Micrômegas se sentia indignado e surpreso pelo espantoso contraste que descobriu, mas, aproveitando por estar com aquele seleto grupo, questionou sobre suas ocupações e sobre seus conhecimentos. Atônito com as respostas, o anão se sentiu tentado a tomar-lhes como feiticeiros, entretanto, Micrômegas prosseguiu, questionando-os sobre o que era a alma e como as idéias eram formadas.

Todos responderam ao mesmo tempo; o mais velho citava Aristóteles, outro falava de Descartes, este de Malebranche, aquele de Leibniz, aquele outro de Locke e entre eles, por desgraça, um afirmou que sabia o segredo de tudo e complementou que tudo era feito unicamente para o homem. Com essa afirmativa, os viajantes puseram-se a rir, seus corpos se agitaram e o navio caiu no bolso das calças do saturniano. Ao encontrá-los novamente, prometeu-lhes, apesar de estar um tanto enfadado de ver que os infinitamente pequenos possuíam um orgulho infinitamente grande, que redigiria um livro de filosofia, no qual leriam o fim de todas as coisas, escrito de forma bem pequena para que pudessem utilizá-lo. De fato, entregou-lhes um livro que foi levado para a Academia de Ciências de Paris, mas quando o secretário abriu, viu apenas um livro em branco.


O conto Micrômegas, de Voltaire, inicialmente já nos apresenta a uma das fortes características do autor: a contradição. No título, podemos perceber duas palavras que se contradizem, micro e mega; micro, do grego mikrós, que significa pequeno, e mega como sendo relativo a grande. Podemos tirar algumas significações, por exemplo, estar se referindo ao homem, pois é pequeno em tamanho, mas grande em inteligência, ao mesmo tempo em que novamente é pequeno por não saber como usar essa inteligência, e querer sempre mais e mais (talvez possamos dizer que o homem é movido a desejos, alguns desses muito contraditórios e alguns outros que simplesmente não sabem como lidar).

Micrômegas se mostra, no desenrolar do conto, um reflexo quase nítido de Voltaire, expondo muitos de seus ideais durante os fatos que ocorrem; ideais, inclusive, do movimento iluminista francês. Isso se apresenta em alguns momentos: crítica à Igreja, quando um ignorante mufti do país de Micrômegas condena um de seus escritos por heresia, e assim o priva de participar da vida na corte. Logo em seguida, Voltaire nos comprova a importância que dava ao sexo feminino, atribuindo inclusive uma igualdade mental inata entre os sexos (o que sabemos ter sido essa condição fonte de muitas discussões e posições extremadas), quando coloca as mulheres a favor de Micrômegas, no seu processo de julgamento por heresia (fato não citado no resumo). Sabemos, inclusive, que o autor do conto teve uma de suas obras censurada, o que possivelmente o levou a essa crítica.

Em vários momentos do conto, podemos notar que Voltaire insiste na pequenez de muitos em quase sempre não dar valor ao que têm, e que sempre falta algo, por mais que se tenha, como nessa passagem: “(…) nenhum vi que não tivesse mais desejos que verdadeiras necessidades, e mais necessidades que satisfação. Talvez chegue um dia ao país onde não falta nada; mas desse país até agora ninguém me deu notícia”. Pode-se supor que não exista, de fato, um país onde nada falte ou alguém que se diga plenamente satisfeito, pois parece ser da condição humana o desejo de querer sempre mais, e não podemos ver esse desejo como sempre negativo, ele pode ser, também, a força que move os humanos às grandes realizações, aos grandes feitos.

Expõe a superficialidade que muitas vezes se é atribuída a uma observação, que conseqüentemente não será muito proveitosa e pouco legítima, quando, ao procurarem por vida na Terra, o anão diz não haver ninguém, por justamente não ter visto ninguém. Só por não ver, fica provado de que necessariamente não deixa de existir, deve-se sentir bem. E aparece aí a importância que Voltaire atribui às sensações como melhor via de conhecimento, uma forte idéia defendida por seu precursor, John Locke. Essa noção de acreditar no que vê também nos revela um dos preconceitos desprezados pelo autor, o preconceito dos sentidos (ex: o Sol é pequeno, pois o vejo assim). Não devemos reduzir nossos sentidos ao aparente, ao que nos apresenta numa primeira instância. Devemos possibilitar o “ir além”.

Ao se depararem com os habitantes da Terra, atribuem-lhes de imediato a ausência de alma, por serem tão pequenos ao ponto de não suportarem carregar tamanha preciosidade. Mas com alguma observação e muito espírito de descoberta, percebem que esses seres se comunicam, e para se comunicar é preciso pensar, logo, teriam alma. Notamos nessa passagem o erro que se dá ao fazer um julgamento por aparências e dele levar à generalização, e até mesmo fechar o ciclo de possibilidades. Pois logo se percebe, mais uma vez, a importância da observação, mas uma observação inteligente, para assim chegarmos a conclusões, com sorte, mais viáveis. Talvez o fato de se atribuir o pensar à existência de alma seja, também, racional demais…

A noção de que não teriam alma levou aos homens indignação, o que os fez mostrar sua inteligência aos seres de planetas distantes, mostrando até que existiriam seres menores e ainda mais inteligentes. Percebemos outra crítica quando Micrômegas e seu companheiro saturniano supõem que, por haver ali tão puro espírito, teriam encontrado o lugar onde existe a verdadeira felicidade. Mas os homens os fazem notar que, com toda presunção e estupidez dos mesmos, de nada lhes valeriam tamanha quantidade de bens, pois sempre almejariam mais e mais, mesmo que para isso massacrassem outros milhares. E essa ainda é uma continuação de uma crítica do início do conto, em que Micrômegas mostrou que quanto mais se tem, mais se deseja, e que para realizar certos desejos alguns homens são capazes de tudo, inclusive ferir a humanidade do outro.

Ao questionar os homens sobre o que seria para eles a matéria, Voltaire entra mais uma vez com uma de suas idéias, provando que se pode escrever mil tratados de sábios e não desvendar o segredo do universo, ou questões como o que é a matéria. E assim, de nada lhes adiantaria saber tudo o que há externamente, se não se tem noção do que é esse “externo”. Assim como percebem haver divergências quanto ao que teriam também por dentro, por existirem diferentes linhas de raciocínio, que muitas vezes só levam à conformidade e à segurança do desconhecido (de se manter longe desse desconhecido), porque geralmente não compreendem nem do que se trata o raciocínio adotado para si (no conto isso pode ser afirmado pelo que um dos filósofos falou de uma teoria de Aristóteles sobre a alma, em grego, e nem ele mesmo entendia o significado; ou da contradição do cartesiano sobre o que seria a matéria).

Quando os companheiros de viagem concordam com o filósofo partidário de Locke, podemos perceber claramente a presença de Voltaire. Prefere a teoria de Locke, de que tudo deriva das sensações. A sensação é tão importante quanto o pensamento; e o mundo é uma sensação contínua. Uma suposição que pode ser retirada dessa idéia é a de que a alma não se restringe ao pensamento, posto que as sensações, para Voltaire, ocupam um espaço mais significativo na produção de conhecimentos acerca do mundo e de si mesmo.

No momento final do conto, em que os viajantes prometem um livro de filosofia que conteria o fim de todas as coisas, nos surpreendemos com um livro em branco. No entanto, é claro o sentido de tal metáfora, pois como e quando alguém conseguiria ter conhecimento do fim de todas as coisas? Já que tudo está sempre em fase de mudança, de recomeço, de descobertas. Se existisse um fim, saberíamos então do começo. Mas que começo? Só através da conformidade se poderia esperar que esse fim viesse em letras e páginas, teorias e hipóteses. Apesar de tudo, nenhum livro de filosofia poderia conter o fim de todas as coisas, se é que as coisas têm um fim. Construímos cada dia partes de nossas vidas, alguns esperando saber do tal fim, e outros caindo em frustração ao verem que tudo o que construímos não nos leva a mais do que um constante recomeçar. E as teorias sobre o Universo, sobre tudo o que nos cerca… Talvez não possuam respostas que os seres humanos pudessem suportar (isso lembra “Indiana Jones e o reino da caveira de cristal”, 2008).

Podemos encarar, também, o livro em branco, como uma referência a tabula rasa, do pensamento de Locke. Antes da experiência, o espírito seria como uma folha em branco, uma tabula rasa. Todos os suprimentos necessários para a mente humana partiriam da experiência, não seriam inerentes ao conhecimento humano. Então Micrômegas e o companheiro saturniano poderiam estar fazendo referência a essa teoria de Locke, defendida por Voltaire.

O conto nos mostra como Voltaire consegue lidar com questões da natureza humana de forma tão sutil e enriquecedora, no entanto, não escondendo seu lado crítico e irônico, tão sempre aclamado por seus adeptos e admiradores. Cabe uma sugestão de que façam a leitura do referido conto, pois só vem a acrescentar em nossa formação diária e constante.

Ana Clara Martins

Junho de 2010


ISSN 2238-5290