Sete Dias Com Marilyn (2011, Simon Curtis)

Não se questiona o fato de que Sete Dias Com Marilyn, graças ao período de premiações que atravessou (e que sempre deturpa e embaralha o que há de mérito ou problemático num filme), deixou de ser um trabalho sobre Marilyn Monroe para ser o momento em que Michelle Williams travestiu-se de Marilyn Monroe. A escolha da jovem atriz, um prodígio de interpretação em papéis radicalmente opostos ao que aqui se entrega, foi um golpe eficiente para despertar a curiosidade e direcionar os holofotes da imprensa não exatamente na musa, mas na sombra, na imagem que se construiu de uma das mais glamorosas personagens que Hollywood gerou. Uma pena que todo o interesse desta cinebiografia se concentre somente na atriz e em alguns de seus pares — considerando o inexistente esforço de Simon Curtis em diferenciar sua linguagem televisiva dentro de seu primeiro trabalho para o cinema, assim como o simplório tratamento do roteiro em jogo, que facilmente poderia ser substituído por qualquer dos incontáveis livros que já biografaram a diva —, mas é preciso concordar que, em se tratando de um exercício para atores que imitam atores que imitam (…), Sete Dias Com Marilyn faz algumas observações que não deixam de ser interessantes para um imaginário cinéfilo um tanto quanto agonizante.

Ao encenar uma representação das filmagens de O Príncipe Encantado (Laurence Olivier, 1957), Sete Dias ilustra um curioso estado de criação que ultrapassa o trocadilho — no caso, os sete dias da criação do mundo — e abre novas possibilidades para o filme outrora enferrujado de Olivier. Por mais que seja divertido assistir algumas hipóteses da realidade que envolveu aqueles bastidores (pois estaremos sempre no campo da ficção, por mais que um letreiro introdutório indique tratar-se de um fato verídico), o que predomina é um caótico espírito de crise, de desavenças não só entre os mitos, Laurence e Marilyn, mas entre suas próprias interioridades e até mesmo dentro do inescapável embate de linguagem a que o cinema se reduz diante de alguns pontos de vista. Já sabemos que para Olivier, o cinema era um braço do teatro, do literário, por isso torna-se interessante a disputa que ele travará com uma mulher que não é palavra ou expressão dramática, mas pura carne, puro contorno de imagem a pulsar dentro do ecrã.

Mais interessante ficam as coisas quando vemos Marilyn debater-se numa desesperada busca pelo personagem, por aquilo que precisa sair do papel e lhe penetrar a pele, honrando a nova tradição do Método a que os jovens atores abraçavam nos anos 50. Uma bela cena de Sete Dias é aquela em que a mulher Marilyn, na madrugada de sua casa, sem maquiagens e luzes, encontra um caderno em que seu atual marido, o escritor Arthur Miller, registrou sua infelicidade matrimonial, sua decepção com a mulher vazia com quem divide a cama. Na cena, ainda não sabemos o conteúdo do caderno (a ser revelado muito depois, dentro do filme), por isso tudo o que vemos é um puro conflito entre o corpo decaído da mulher sem máscaras com as palavras que não saem do papel, mas que a atormentam profundamente. Um embate fundamental para todo este cinema classudo que ainda hoje vemos proliferar, especialmente nas épocas dos badalados festivais.

O nicho dos filmes a que pertence Sete Dias Com Marilyn, por mais que se destaque da mediocridade padrão que preenche as bilheterias, também não traz resolvido o seu problema com os textos acadêmicos nos quais se baseia. São trabalhos que fazem da palavra o alicerce, do roteiro a única possibilidade de êxito, e por isso tendem a fracassar. O enigma não solucionado por Olivier em 1957 — que o levou sabiamente de volta aos palcos e obrigou a uma saudável pausa de mais de uma década na direção de cinema — é o mesmo que ainda assola o funcionamento de boa parte do cinema contemporâneo: como fazer um personagem sair do texto e ganhar corpo dentro da imagem? Como encontrar a vida no tempo que já se foi? Como fazer da ilusão uma realidade, ainda que por pouco mais de 90 minutos? São conflitos que incomodam toda verdadeira mente criativa, mas que nem sempre encontram resposta durante uma projeção; como é o caso deste filme. É quando se ganha mais lendo um livro.

Fernando Mendonça

Junho de 2012


ISSN 2238-5290