Prometheus (2012, Ridley Scott)

Entre o enigma e a explicação

Nem todos estavam numa sala de cinema em 1979, quando Alien – O Oitavo Passageiro, dirigido pelo ainda iniciante e sexta opção de direção Ridley Scott, entrou em cartaz, propondo um singular cruzamento entre os gêneros da ficção científica e do horror. Basicamente, o filme se funda como uma simbiose de características típicas escolhidas a dedo de um (o universo, as naves, as jornadas, os dilemas da vida artificial ou extraterrestre) e do outro (a claustrofobia, as personagens, a perseguição, as criaturas e a escatologia), para criar uma imponente crônica sobre o medo, especificamente sobre o medo do desconhecido, quando precisamos dividir um mesmo espaço com ele. Também impulsionada pelas sequências (lançadas em 1986, 1992 e 1997), a saga alargou o seu imaginário – rainha alien, colonização, Ripley grávida, armas biológicas, clones – e passou a ser apreciada por diferentes gerações, cada qual com seu vínculo afetivo próprio, em especial pensando nos que aprenderam a consumir o audiovisual por meio das – hoje quase extintas – locadoras de vídeo. Seja como for, acaba de entrar em cartaz Prometheus, produto que está sendo vendido como a volta de Scott ao universo sci-fi depois de trinta anos, mais precisamente desde o também clássico Blade Runner (1982), responsável pelos contornos mais claros do interesse do diretor por diferentes sensibilidades de existência.

Aliás, o filme surge como uma caixa de referências diretas. Além dos dirigidos por Scott, também presta sua homenagem a 2001 – Uma Odisséia no Espaço, seja na ótima primeira metade sustentada pela atuação solitária de Michael Fassbender como o andróide David, uma mistura humanóide de HAL 9000 com a própria tripulação do filme de Kubrick, seja quando reproduz inteiramente o cenário do astronauta envelhecido na cama por meio de um milionário, cujo impulso em alcançar os limites da criação é movido pela vontade em revelar o segredo da eternidade. Sobe som Zaratustra. Também apropria-se, deslocando como uma falsa epifania sobre a fé, a metáfora do titã Prometeu, castigado por roubar o fogo dos céus na tentativa de tornar igualitário o patamar existencial entre deuses e homens. Acontece que o filme deixa de lado o olhar enxuto de seus predecessores de saga (presente na primeira metade), para reunir todos os clássicos e se lançar em debates filosóficos supra-pretensiosos. Se em Alien – O Oitavo Passageiro todos os mesmos temas estão presentes sem que seja necessário versar e versar e versar sobre eles, Prometheus verbaliza cada imagem e se rende ao clássico temor de explicar tudo direitinho, dar todas as respostas bem desenhadas, para não correr o risco do espectador não entender. Os diálogos vão se sucedendo como se o diretor estivesse pegando nossa mão e nos conduzindo ao conhecimento, gerando uma manta não gosmenta de redundância ao redor da obra.

Mesmo encurralado entre comentários oficiais afirmando que a obra não tem relação direta com Alien e a inevitável associação que qualquer espectador minimamente informado pode fazer pela quantidade insolúvel de referências, o filme funciona como uma espécie de prequel (pré-sequência) da obra fundadora da franquia. A ressalva fica, talvez, pelo design interno da nave um pouco mais clean que os anteriores, afinal uma das marcas mais sólidas da saga é o tipo de futurismo que desenvolve, adentrando um decadentismo profundo, de modo que as mesmas naves que cruzam o universo estão inundadas de corredores que lembram esgotos. A história acompanha uma missão espacial, patrocinada pela velha empresa Weyland, responsável por todas as missões dos outros filmes, a bordo da nave Prometheus, procurando confirmar ou negar que a existência humana tenha sido uma criação de seres do espaço (chamados de “engenheiros”). Para reforçar o intento, um casal de cientistas descobriu registros de civilizações antigas, de épocas e lugares diferentes, apontando para um mesmo estranho desenho no céu. Trata-se, na leitura deles, não de um mapa, mas de um convite e assim partem em busca da origem e da criação da humanidade (o que lembra a confusão entre “pedido de socorro” e “alerta: mantenha distância” do primeiro filme). A premissa, decerto, encanta qualquer apreciador do gênero, fazendo alusão ao clássico livro Eram os Deuses Astronautas?, do suíço Erich von Daniken, para voltar às perguntas transcendentais da humanidade e, no caso de Prometheus, respondê-las desesperadamente. Cinco vezes se for necessário.

Portanto, a volta de Ridley Scott não merece ser muito festejada, aliás, detesto essa adoração dos fanáticos por qualquer fagulha que faça menção aos clássicos, afinal o filme consegue reunir falhas, na metade final, de diferentes graus em praticamente todos os segmentos que constituem o cinema. A começar pela escolha da tripulação, porque exceto pelo já comentado Michael Fassbender e acrescentaria a Charlize Theron como a empresária Meredith Vickers, todos os atores restantes simplesmente não cabem nos personagens que interpretam, gerando uma série de cenas cujo impacto dramático ou heróico só consegue gerar um humor involuntário. Parecem contratados um a um apenas para morrerem e no meio disso explicarem tudo que estamos vendo. Temos a sorte de na metade inicial estarem todos dormindo. Um segundo problema é a fragilidade do roteiro de Damon Lindelof e Jon Spaihts, um roteiro de fãs com o poder da explicação nas mãos, seja pela trama como um todo, seja por momentos particulares, de modo que fica a impressão que o objetivo é mais trabalhar em cima do poder do fetiche – cenas que remetem a outras cenas, cenas que “explicam” lacunas deixadas no primeiro Alien – que produzir uma obra minimamente original. Prometheus, mesmo com todo invólucro sofisticado e com o design de criaturas apurado, é o típico exemplo de encenação cuja potência reside em transformar enigmas poderosos – e que justificavam em muito o sucesso do filme de 1979 – em diálogos volumosos e cenas descartáveis de ação. Ah, claro, quando os enigmas são deixados em aberto é apenas porque já estão pensando em respondê-los em uma continuação.

Rodrigo Almeida

Junho de 2012


ISSN 2238-5290