O Amor Nunca Acaba (2012, Luiz & Ricardo Pretti)

Não importa qual
Seja o Filme – esse algo
Não impossível que ainda vem.

Há um filme por vir. Uma promessa nas coisas, nas formas do mundo, à espera do encontro, de olhares sensíveis, movimentos constantes. Olhares que os irmãos Pretti insistem, que resistem, e que, finalmente, não se importam em nomear. Parodiamos na epígrafe acima a delicada sinopse de O Amor Nunca Acaba, novo curta dos diretores, por sentir que a sofrida espera vivida pelo seu protagonista (o desejo por uma ‘mulher não impossível’) é a mesma que os Pretti experimentam na relação com o cinema, apresentada por eles, há alguns anos, em filmes que também tematizam a espera e fazem dela sua motivação formal.

É de imagens não impossíveis que os Pretti alimentam sua lógica da subversão, que fomentam e provocam um desequilíbrio no estado da narrativa, daquilo que eles contam por meio de personagens aflitos, esvaziamentos do espaço, emanações que, invariavelmente, resvalam em fantasmagorias, alucinações de identidades perdidas. Na figura de Augusto Rocha (Rodrigo Fischer), persona sem nome dentro do filme, mas assim batizado pelo roteiro e pelo que os diretores divulgam — à maneira do protagonista de Blow Up (1968), obra de um realizador-referência aos irmãos —,O Amor Nunca Acaba dá partida a questionamentos mui caros a imaginários específicos, igualmente desenvolvidos por cinematografias contemporâneas.

A espera de Augusto, sua expectativa pela mulher e pelo amor, evoca sentimentos que nos parecem próximos a filmes como The Brown Bunny (2003) e En La Ciudad de Sylvia (2007), principalmente porque Augusto também não se resigna a uma espera passiva, indo atrás deste amor com maneiras imprevistas e marcantes, fazendo da busca o sentido da imagem, a exemplo da cena que encerra o curta-metragem, talvez seu melhor momento: uma mulher caminha durante a noite, é abordada por Augusto, que se descobre enganado por ela não ter o nome de quem procura, mas que não resiste e a convida para entrar em seu carro. O mesmo gesto dos Pretti, que mesmo não encontrando a ‘imagem certa’, ainda fazem do acaso um motivo possível. E nos convidam para sua jornada.

Se não economizamos nas interseções traçadas entre personagens e autores, entre a vida e o cinema dela feito, é porque em O Amor Nunca Acaba, tais relações nos parecem potencializadas pelo bem-vindo silêncio de vozes e falas sabiamente trabalhado. Os Pretti retornam ao domínio da curta duração — o que eles melhor dominam — mais uma vez conscientes de que não é preciso falar para mostrar, deixando de lado a verbalização que ameaçou diversos momentos de trabalhos anteriores (especialmente longas) que também guardam enorme sintonia com o aqui pretendido; no caso, Um Homem Sem Mulher (2005), filme que desde o título já pode ser lembrado como uma das origens de O Amor Nunca Acaba, e Os Monstros (2011), com uma cena de festa também aperfeiçoada pelo novo curta.

Assim como “não importa quem seja Ela”, ou “qual seja o Filme”, não importa de onde ele vem, mas que ele venha. Daí a importância do registro de um filme que foi lançado num Festival de Cinema (Cine OP) e disponibilizado gratuitamente via internet (site Alumbramento), durante uma semana, de forma simultânea. Em O Amor Nunca Acaba, há uma cena-sonho em que a sombra de uma mulher promete não ir mais embora, que o seu amor é para sempre; cena de materialidade frágil, aparentemente perdida dentro do filme. Esta é a cena dos Pretti, de sua eterna promessa, a ser cumprida em salas de cinema ou em telas de PCs, renovando um cenário de produção que tem voltado a acreditar, que não tem se importado com o impossível.

É o cinema que não acaba.

Fernando Mendonça

Julho de 2012


ISSN 2238-5290