Hunger / Shame (2008 / 2011, Steve McQueen)

Depois de meses sem um Filme em Foco, voltamos a esse estimado espaço de acordo, desacordo e entrelace de abordagens trazendo uma boa surpresa: para compensar o tempo, a duração na ausência, ao invés de um, escolhemos dois filmes. O motivo, contudo, não é aleatório, afinal decidimos nos debruçar sobre as únicas obras do jovem cineasta inglês – e não do já falecido ator norte-americano – Steve McQueen. Trata-se de Hunger (2008) e Shame (2011), duas produções, em particular a segunda, que dividiram em absoluto a crítica e os espectadores, de modo que encontramos tantos defensores árduos com amor nos olhos quanto críticos ferozes que consideram o trabalho do cineasta nada mais que um exercício rigoroso e conservador. O caso é que não somos capazes de delinear um projeto de cinema em McQueen, seus passos estão firmes, mas ainda são os primeiros e, assim sendo, não podem esboçar o caminho delicado que interliga afirmação e transformação. Seja como for, o olhar presente em seus enquadramentos planejados em milímetros revela uma dureza técnica, que para alguns afasta o afeto enquanto para outros evidencia com mais crueza os limites do corpo. Um corpo deteriorado, corpo político, corpo moralizado, corpo sensível. Nota-se ainda que a parceria com o ator alemão Michael Fassbender em Hunger e Shame desloca o fetiche presente no corpo do atual queridinho da indústria cinematográfica para campos desconfortáveis, seja na magreza excessiva durante uma greve de fome, seja quando o corpo é, no encontro entre hedonismo e afetividade, uma espécie intransponível de sexo sem gozo.

Rodrigo Almeida

Julho / Agosto de 2012

> Corpo em (Des)FocoFernando Mendonça

> Sobre o corpóreoRicardo Lessa Filho

> Corpo em evidência e desacordoRodrigo Almeida

> As instalações de McQueenRanieri Brandão


ISSN 2238-5290