O Tempo da Poesia:              Clarice e Ozu

A Rotina tem seu Encanto (Yasujiro Ozu, 1962)

Há momentos em que, ao se relacionar dois artistas, o ocidente e o oriente parecem mais próximos, mas tão próximos que os nomes criados para dividi-los parecem adereços estranhos e desnecessários. Para que falarmos em leste e oeste, norte e sul se tudo só depende de qual ponto de vista você está observando um mapa? Podemos falar em distância entre um lugar e outro, mas o que são dias de viagem perto de uma vida inteira? Fatores geográficos não são suficientes para dizer que dois artistas não podem ter reflexões parecidas, estando eles muito longe fisicamente.

O elo que os mantém em sintonia é a poesia. É difícil pensar em poesia e encontrar somente uma definição. É um conjunto de versos? É um conjunto de rimas? Inspiração, reflexão, sentimento. Uma vez, ouvi algumas crianças conversando no ônibus sobre doces, uma delas tinha ganhado um pacote com muitas balas e chocolates. Então, no meio da euforia diante de tanto doce, uma delas rimou duas palavras sem querer, e começou a rir e repetir a rima. Ninguém falou a palavra ‘rima’, mas todas perceberam o acontecimento fonético e riram disso. Poesia? A vida está cheia dela, faz parte da natureza. E os artistas possuem olhos diferentes. Captam aquela poesia que está presa na aura da natureza sem serem bucólicos. Com poucas palavras, eles nos mostram delicadamente o que nossos olhos não percebem, talvez por falta de ingenuidade de nossa parte. Queremos ver sentido em tudo, buscamos por explicações objetivas e diretas esquecendo de que nem tudo existe devido à razão. Ou que nem tudo possui somente uma explicação, eliminando todas as outras possibilidades interpretativas. Tendo em vista o excesso de objetividade, esses autores nos guiam pela mão para nos mostrar o que sempre esteve na nossa frente, mas ainda não percebemos.

Enquanto Yasujiro Ozu se utiliza do cinema para nos mostrar a efemeridade da vida e a eternidade do tempo, Clarice Lispector se apropria da literatura para guiar nosso raciocínio pelo caminho mental que ela constrói, tendo resultados parecidos com os do cineasta oriental. Ambos apresentam um grande interesse por entender o tempo, considerado por eles o elemento mais difícil de explicar, mais abstrato do que qualquer outro. Assim como Clarice faz reflexões sobre o momento do agora e do instante, Ozu também pensa na problemática do tempo. Estes dois poetas possuem suas particularidades individuais, mas também seus pontos de contato. Pensando nisso, relacionamos alguns filmes de Ozu (Pai e Filha, A Rotina tem seu Encanto e Fim de Verão) com alguns contos de Clarice (Amor, A fuga e Perdoando Deus), enxergando nestas obras mais um ponto de partida do que uma linha delimitante. Principalmente porque ambos os autores possuem um fator importante: referências. Não há como conversar sobre um conto de Clarice e não se lembrar de outro nas entrelinhas.

O banal, o acontecimento diário e repetitivo serão o plano de fundo da reflexão que Clarice propõe em seus contos (ou crônicas?). A poesia de suas narrativas é discreta e sensorial. A autora nos ensina a ver essa poesia em situações mais difíceis de perceber: aquelas em que nem nos damos conta de que estamos vivendo, de tão habituais que se tornaram. Nossos sentidos sem ingenuidade são reensinados a ter experiências realmente sensoriais. Pode parecer pleonasmo falar em ’sentidos tendo experiências sensoriais’, mas acredito que em alguns casos, a racionalização já é tão dominante, que até mesmo os nossos sentidos já se perdem no meio de tantas lógicas. Em Perdoando Deus, o carinho que a personagem/autora sente pelo mundo e por Deus é tão maternalmente intenso que o leitor absorto nas palavras se sente amado e acariciado. Clarice ama o mundo, ama Deus, a natureza e você, leitor. A aura materna predomina, sem explicações. Por que ela começou a se sentir assim no meio de uma caminhada? E por que carinho de mãe, e não de amiga ou irmã? Baniremos os porquês.

Tudo começa com um simples ato do cotidiano, do mesmo jeito que seria qualquer outro dia. Os dias são, por sua essência, repetitivos. Todas as manhãs, o sol nasce. Todas as tardes, ele se põe. Todos os dias, o mar vai e vem, a maré sobe e desce. Depois da primavera, vem sempre o verão. A natureza deve gostar da rotina, assim como Ozu gosta de repetições. Os temas da família e do casamento serão largamente abordados pelo cineasta, principalmente nos seus últimos filmes. Em A Rotina tem seu Encanto, a palavra ‘casamento’ é dita no primeiro minuto do filme. Em Pai e filha, o tema central da narrativa é o desejo do pai de casar a filha, Noriko. Em Fim de Verão, a mesma atriz representa uma personagem de mesmo nome que também recusa se casar. Como já dito, a recorrência à natureza e à rotina é o plano de fundo das obras que Clarice e Ozu se propõem a fazer, sem retomar o bucolismo dos arcadistas do passado. Ambos são críticos, eles observam o mundo em que vivem e nos fazem refletir sobre as mudanças da sociedade, sobre os preconceitos, a ganância. Esses poetas fazem-nos lembrar de que, sim, nós existimos. E não pelo simples fato de pensar, como dizia Descartes. Mas porque temos consciência de que pensamos, de que percebemos os outros ao redor, de que sentimos o mundo, de que somos livres.

Para percebermos o mundo ao redor é necessário antes ser livre, ou se sentir assim. Clarice gostava de epifanias. Primeiro, o banal. Depois, o banal extraordinário. Em seguida, a liberdade, que será seguida pela percepção. Para Ana, personagem de Amor, perceber o mundo ao redor, ela teve que se libertar da rotina, quebrar a inércia. E quanto mais duro, no sentido de consolidado, é o cotidiano, mais força deve-se fazer para quebrá-lo. “Inquieta, olhou em torno.” Livre, olhou em torno. E Ana realmente viu.

Fim de Verão (Yasujiro Ozu, 1961)

A liberdade é discutida discretamente nos filmes de Ozu. Em Fim de Verão (1961), o patriarca percebe que não é necessária a estrutura familiar para ser feliz, o que é um escândalo para os costumes japoneses. A rotina é quebrada. O mundo em volta está um caos, a pequena empresa faliu, os tonéis estão vazios, inúteis. O viúvo Kohayagawa encontra a nostalgia em sua amante. Apesar de ser sufocado pela família, ele nunca perde o bom humor e começa a procurar a poesia em meio a tanto estresse. É como se Ozu dissesse: “Sim, o mundo está de cabeça para baixo. O capitalismo está destruindo as tradições do meu país. Mas agora está na hora do chá”. Então a câmera senta no chão junto com o casal nostálgico, nos colocando no tempo deles, sentindo a alegria e a liberdade que eles estão sentindo juntos.

“Sem dúvida, é bom ser livre. O que deve fazer é casar sua filha.” A fala sai de uma conversa entre três amigos em um restaurante (A Rotina tem seu Encanto, 1962), onde eles estão discutindo sobre como seria bom o amigo casar a filha e procurar uma moça jovem para ele, pois ela lhe faria se sentir mais jovem. Um dos amigos tem uma filha que é apenas três anos mais nova do que a segunda esposa. Os outros dois amigos têm um pouco de inveja de tanta vitalidade. Porém, alguns segundos depois, a moça chega ao restaurante e pede para ir pra casa. Então toda aquela liberdade que ele disse que tinha, é interpretada com poucas palavras pelos amigos: “Está totalmente dominado. Pobre homem”.

Já em Pai e Filha (1949), o conflito de gerações é a expressão chave para entender mais um sentido que a palavra “liberdade” ganha com Ozu. Noriko cuida de seu pai desde a morte da mãe e se surpreende quando percebe que o pai quer que se case. O fato de ela não querer se casar não é tão simples como parece para a nossa cultura ocidental. Negando o casamento, ela também nega a tradição, a cultura do seu povo. Mulheres não devem ficar solteiras, a vida delas não faria sentido. Por trás daquele sorriso sempre presente da doce filha, nossa imaginação do ocidente nos leva a acreditar que existe certa frustração por ela não entender direito o seu papel, por não conseguir encontrar a liberdade. Ser livre é morar para sempre com o pai? Ou seria abandoná-lo, se casar e servir ao marido? Pelo jeito, em qualquer das opções, Noriko continuaria a fazer a mesma coisa, manteria a mesma rotina. Fazer compras, costurar, arrumar a casa, preparar chás. A personagem de Ozu ficaria chocada ao ouvir Clarice falando: “Antes eu era mulher, agora sou casada”. O mundo ocidental pode ser assustador.

“A vida é tão efêmera”, refletem as cunhadas Noriko e Akiko atravessando a ponte fúnebre em Fim de Verão. Sob a ponte há um rio ralo que já está quase desistindo de ter correnteza. De um lado, a vida. Do outro, a chaminé do crematório. A ponte nem é tão alta, mas dá para sentir a vertigem de viver. Perto da eternidade, a vida é muito curta. Cada segundo deve ser sentido, pois vale muito. Às vezes, nós estamos tão absortos no cotidiano, que não vemos o tempo passar diante dos nossos olhos. Às vezes, nós somos o cego de Clarice mascando chiclete (Amor, do livro Laços de Família), a eternidade está dentro de nós, mas não conseguimos ver a vida ao redor.

O tempo é algo tão difícil de pensar que é melhor dizer o que ele não é ao invés de defini-lo. Ele não é concreto, não é visível, não é manipulável. Não depende de relógios, não espera por ninguém, não tem piedade por nada. “Os dias se derretem, fundem-se e formam um só bloco, uma grande âncora”. Clarice gosta de adjetivos. Ela os usa de um modo peculiar, adjetiva substantivos de um modo que eles nunca haviam experimentado antes. De repente, verbos viram substantivos, adjetivos viram verbos, mas sem fugir da gramática. Ela não inventa palavras, mas inventa um conceito novo para cada uma. “E como uma borboleta, Ana prendeu o instante entre os dedos antes que ele nunca mais fosse seu”. Lendo Clarice, criamos o desejo de também prender o instante, algo que é tão rápido e imperceptível, que se torna curioso. Não é um tempo que se mede em relógio. Como perceber o bater de asas de uma borboleta, ou o momento em que o beija-flor para no ar, ou o piscar de olhos de uma criança que brinca no parquinho? Não existe cronômetro para isso. Em um instante existia, e imediatamente não existe mais. Os números se tornam inúteis diante da poesia de Clarice.

Por outro lado, Ozu não utiliza adjetivos, nem palavras. Os planos de seus filmes não são descritivos, a câmera é parada, sentada no chão. No cinema de Ozu os planos não duram dois ou três segundos como nos filmes hollywoodianos. Eles duram quanto tempo for necessário para os espectadores verem o tempo de Ozu. E não vemos devido a demora entediante, pois os segundos passam escondidos. Há cinemas em que os momentos banais são mutilados, os filmes são impacientes. Mas em Ozu, os filmes são sobre a rotina, então ela permanece sem cortes. Sentados no chão, nós temos a visão do pátio da casa, do corredor e da porta. Vemos a porta se abrir e o personagem andar até nós, de modo leve e calmo, preenchendo o tempo.

Clarice e Ozu se apropriam de momentos e os costuram para formar uma narrativa. Cada momento possui a sua aura e sua atmosfera. Se o assunto é morte, um incenso de fumaça branca e fina dá o tom solene e leve à cena. Se o momento é de alegria, ela precisa ser clandestina para não se tornar rotineira. Quando fala de infância, o texto é regado de corridas, bochechas vermelhas, gargalhadas, doces e receios. Enfim, o meio ambiente das obras construído por essa dupla de poetas é tão bem feito como uma teia de aranha, é bem fino e bem amarrado, causa encantamento. Fechemos os mapas, escondamos os relógios e calendários. Vamos fingir que Ozu e Clarice eram amigos. São amigos. A poesia os une e nos une a eles, quando conseguimos enxergá-la.

Camille Reis

Agosto de 2012


ISSN 2238-5290