O Escritor Fantasma (2010, Roman Polanski)

O movimento mais significativo de O Escritor Fantasma está na abertura de uma sequência que tem sido muito comentada e bem recebida; aquela em que o protagonista vivido por Ewan McGregor foge de dois capangas sinistros numa perseguição de carros até conseguir despistá-los dentro de uma balsa de travessia. É um movimento muito sutil, bonito e com dinâmica suficiente tanto para abrir a sequência (aquela onde o suspense culmina de forma mais física em todo o filme), como para concentrar a motivação e postura que Roman Polanski demonstra ter nesse momento de sua carreira.

McGregor sai de uma casa onde acabou de travar um misterioso diálogo com um homem suspeitamente envolvido no assassinato do escritor que lhe antecedeu. Segue para o carro. O caminho é uma densa floresta. Sentado ao volante suspira, tentando juntar as peças do psicótico jogo em que se envolveu. Por acaso, vê pelo pára-brisa um pedaço de tronco morto, os restos de uma árvore que permanece com as raízes fincadas ao chão. Um pequeno esquilo sobe no tronco. E é encontrado pelo olhar de McGregor. O animal, em sua rotina, salta de onde está e corre pela floresta. Acompanhando despreocupadamente o pequeno ser, o movimento da câmera, subjetiva do olhar do ator, percorre um giro até encontrar em primeiro plano o retrovisor. Nele, McGregor e nós, vemos o carro com os assassinos à espreita, alguns metros atrás.

A dificuldade de narrar em palavras o que é apreendido nesse único movimento (de enxergar o esquilo, acompanhá-lo e encontrar no caminho a ameaça dos assassinos) não é compartilhada pelas imagens de Polanski. Pelo contrário, a fluidez da cena, sua transparência, é justamente o que mais nos assombra ante a descoberta final do perigo. E como dito, eis uma cena que carrega em si todo o princípio de articulação narrativa desenvolvido pelo filme, pautado pelos detalhes, pelas sutis e banais descobertas que, por sua vez, conduzirão a intriga sempre para caminhos diversos, não previstos mas já presentes e sinalizados desde o início de tudo.

O Escritor Fantasma é antes de qualquer coisa um filme sobre o narrar. Cada gancho desenvolvido pelo roteiro é símbolo do exercício primeiro de um escritor/narrador; e se a todo instante somos enganados por pistas falsas, testemunhas contraditórias, ou fatos que nunca se encaixam, é porque o narrar de O Escritor Fantasma é antes de qualquer coisa um reflexo do ficcionalizar. Também constatamos tal prerrogativa por indícios visuais semeados por todo o filme, seja em objetos cênicos, na postura dos atores ou na impecável ambientação dos cenários, entre os quais destacamos o núcleo formado pela grande mansão onde McGregor irá trabalhar, especificamente seu escritório, onde uma das paredes nada mais é do que um grande e transparente vidro, capaz de trazer ao mesmo tempo a segurança da interioridade e a ameaça da visibilidade do mundo externo.

Assim como o movimento do esquilo (também visto por entre vidros – pára-brisa e retrovisor), este é um cenário de potência singular, símbolo do ponto de vista seguido por Polanski, que opta por entregar os fatos sem mostrá-los. Da mesma forma que a parede de vidro só permite ver um fragmento limitado do mundo, aliás um mundo que jamais é ouvido, toda a intriga desvendada por McGregor também termina sempre contaminada por uma subjetividade que trai, desde os primeiros dias dele em seu trabalho – onde a escrita biográfica do político corrupto é contada e manipulada apenas pelo próprio –, até sua atrapalhada investigação particular daquilo que descobre ser um verdadeiro crime.

Ora, estamos mesmo falando dos melhores dias de Polanski, daquele que nos anos 60 soube construir, filme a filme, um verdadeiro tratado da imagem psicótica, com personagens e situações que ultrapassavam os limites da neurose para nunca se decretarem concretos e factuais. E se desde Death and the Maiden (1994) Polanski não era tão polanskiano, poucas vezes ele terá sido tão explicitamente biográfico e dado à reflexão do ato próprio de filmar e contar uma história.

Falar de ficção, como a origem latina denota, é falar de invenção, simulação, fingimento. Em O Escritor Fantasma todas as cartas estão postas, mas todas de cabeça para baixo, fora de ordem, prontas para dar uma rasteira no mais experiente apostador. Aquele que for assistir esperando a convencional resolução do mistério facilmente se decepcionará, pois isso condicionaria certezas, convicções e verdades, matérias que passam longe do projeto de Polanski desde seus primeiros dias com o cinema. A única certeza que importa aqui, podemos arriscar, é a certeza da câmera; nesse sentido, cabe lembrar uma das últimas cenas do filme, aquela que sucede a revelação da persona realmente criminosa, traidora, fingidora desde o início. Na cena, já sabemos do culpado, mas isso não basta para Polanski. Numa brilhante retomada da antológica solução hitchcockiana de Young and Innocent (1937), onde o movimento de zoom era visceralmente utilizado para revelar o assassino ao protagonista, agora é por um apertado travelling que acompanharemos em primeiro plano o bilhete de McGregor sendo passado mão-a-mão, até as mãos criminosas. Nesta cena, já conhecemos o desfecho, mas a câmera não; e somente a sensualidade de seu movimento até as últimas conseqüências pode trazer a certeza final, a fé.

Não por acaso, Jean Renoir também inseria esquilos em seus filmes para elevar o realismo dos personagens ao domínio da fantasia (a força plástica da cena na floresta em La Règle du Jeu -1939, por exemplo, nos mostra um desses bichinhos sobre o topo de uma árvore, como se risse dos tipos burgueses que se debatem lá embaixo); e ele próprio afirmou certa vez ser essa utilização da natureza uma espécie de piscada de olho, de assinatura humorada e consciente diante das limitações impostas ao se fazer cinema. Polanski pode ou não ter se lembrado disso em sua cena do esquilo (arrisco que sim), o importante é que o animal está para a cena como O Escritor Fantasma está para a própria carreira do diretor: uma retomada super pessoal de obsessões que pareciam mortas, uma luz que convida à reavaliação das primeiras obras, um fôlego que clama por novos ares e se afirma vivo para oferecer mais, uma confissão de que ainda é preciso fingir, de que ainda é possível fazer cinema. Pelo menos Polanski piscou o olho legal e fez com que, até o momento, O Escritor Fantasma seja a melhor piscadela do cinema em 2010.

Fernando Mendonça

Junho de 2010



ISSN 2238-5290