La Belle Captive (1983, Alain Robbe-Grillet)

Perversão somática

Dentro do espaço discursivo da imagem, La Belle Captive estabelece um drama que não se restringe ao conflito entre personagens distintos, se estendendo como situação tensora entre o meio verbal e o meio imagético: há ali uma (re)formulação dramatizada da alteridade.

Alteridade que emerge à cena na figura da mulher como objeto de especulação intensificada do erotismo do olhar, mas que mantêm invisíveis rupturas que definem a pessoa, constituindo um retrato supérfluo da mesma. Esse marco no cinema de Grillet se organiza e se estabiliza como uma espécie de mitologia somática. A mulher em La Belle Captive permanece congelada como objeto especular para atuar como divertimento erótico. O recurso que põe em circulação é a tematização da alteridade para converter a pessoa em objeto voyeurístico. Aliás, sensação voyeur, sensação de estar sempre olhando para um aquário de corpos, de sangue, de perversão do medo, esse “objeto” que Grillet para o bem ou para o mal sempre fez uso (e muitas vezes de forma extravagante) em seu cinema. O objeto que se distingue de tal maneira está saturado com valores dramáticos que o levam praticamente a uma categoria de pseudo-personagem. Todos esses mecanismos de relação revestem um significado muito especial se considerarmos que muitos dos objetos estão imbricados nas figuras femininas.

La Belle Captive propõe uma verdadeira anatomia do texto-imagem. Os textos são mãos que acariciam e desnudam; abundam motivos desiderativos: aqui, é o desejo profundo que impulsiona o relato, se diferenciando de seus outros filmes que avançam graças aos elementos suspensos desse mesmo desejo. Esse motivo – o sexo – atua como presença e exigência do corpo. Será então o desejo do discurso da captura? O desejo só pode ser capturado através do desejo de (e por) um outro corpo. O autor é o arquiteto somático dos espaços imaginários. Mas os jogos diegéticos começam quando se planta uma arquitetura da imagem pervertida, que não cessa em flutuar por entre a narrativa e a memória – onírica? – do protagonista.

Essa imagem da perversão dificilmente escapa da implicação da mulher-objeto, isso é, a figura feminina como objeto do jogo. A “natureza feminina” entra para formar a parte da mulher que parece ser importante apenas na metáfora da fecundação. O quadro que aparece no filme como uma assombração metafórica da mutilação do abstrato das partículas de memória, corresponde a uma (outra) história que Robbe-Grillet nunca nos contará. Ficaremos somente com as imagens que ilustram uma história (a verdadeira?), mas nunca conheceremos o segredo final daquela pintura, daquele fragmento oniróide que ameaça e fascina toda a captura do filme.

A mulher em La Belle Captive é prisioneira de sua pele. Tudo o que está inscrito na máquina mitológica, produto do que a sociedade molda como uma mitologia do corpo nu, na qual se preserva um desejo legitimado por uma indústria mercadológica do olhar erotizado pela perversão do sexo enquanto jogo, nessa supra concepção androcêntrica. No filme, o corpo nu, que foi apropriado pelo olhar masculino, é desapropriado por uma violência contra os valores culturais e morais até então construídos. O objeto erótico resulta assimilado no objeto-imagem com o qual pode se jogar. O objeto explica e encarna sua própria animação porque inclui a sua própria criação – e também sua hecatombe.

A imagem que se metaforiza em La Belle Captive enquanto objeto na narrativa de Grillet, está desprovida de peso, para aproveitar uma velocidade menos dependente dos significados e mais envolvida nas estrelas espectrais que eles deixaram – o fantasmagórico, capaz de atravessar a matéria pode ser fragmentos do espectro da imagem. Como pode também ser o signo detetivesco mais doloroso: o homem que exaurido em sua busca por uma memória paupérrima e pálida, ao enfim encontrá-la, sua fragilidade, sua extrema delicadeza a extingue logo quando ele finalmente pensou tê-la recuperado.

Ricardo Lessa Filho

Agosto de 2012


ISSN 2238-5290