L’Éden et Après (1970, Alain Robbe-Grillet)

A insuportável exigência do romper

L’Éden et Après é o típico filme cuja – possibilidade de – compreensão se situa em um terreno borrado, distante de qualquer denominador comum: a altura de sua compreensão se localiza à margem dos fatos, do roteiro, dos personagens e se aloja na amplitude de suas imagens-retalhos, de suas convulsões espaciais e temporais. É um filme construído de relatos sobre a casualidade e o interminável, visto que o roteiro não fora produzido antes do início das filmagens. Os atores foram contratados sem saber o que deviam fazer, e o que fica claro (uma das poucas coisas claras do filme) é que a “hierarquia” é o que caracteriza a sucessão dos acontecimentos em um relato cronológico desmantelado pela montagem abstrata. Dito isso, o filme se torna fragmentação sem término de um relato somático – e, mais uma vez, sobre a perversão.

E se L’Éden et Après é o primeiro filme colorido de Alain Robbe-Grillet, é também nele que se tem início uma de suas fetichizações mais profundas (e é como Freud propôs e Grillet seguiu à risca: o embate do homem moral, mostrando que suas fantasias mais imorais acabam sempre por se impor, de uma forma ou de outra – pela via do onírico ou do somático – fazendo com que, de fato, esse homem se entregue aos seus desejos mais profundos): seu desejo pelo sangue, que para além de seus inúmeros significados, em Grillet representa o corte – esse efêmero da morte – e a virgindade de suas ninfas – o ato do sexo ainda nesse estágio é sobretudo um ato sanguinolento, um ato de perfuração, um ato do trauma, da cicatriz. Portanto, o sangue (cujos tons variam de filme a filme e de cena a cena) adentra pelo portão de seu cinema e é condecorado como uma espécie de protagonista sem nome – e inominável também em seu poder hipnótico para os personagens (para Grillet) e para o espectador.

O filme em sua estrutura disgregada, (quase) apocalíptica evoca a convicção de que a narrativa cinematográfica é um valor adquirido de forma aleatória (de que assim, qualquer planificação – ou a falta de – por mais simplista que seja se condensa em narrativa – e se assim fosse a montagem seria um órgão natimorto), de que essa narrativa não é concedida de antemão, de que é uma construção. Construção que Grillet em L’Éden et Après prefere distanciar para lançar à luz de suas imagens conotações abstratas, alucinógenas, e de cunho criminal: a morte da coerência (e é mais do que evidente que o cinema não precisa de coerências irredutíveis para ser cinema) da montagem e do espaço-tempo de sua narrativa. Fica claro que o filme intenciona – e às vezes consegue com alguma destreza – romper de forma radical a ficção, da crença de que está se despojando dela, de seus principais elementos, acionando assim uma lei além da lógica, isso é, suprimir as concepções possíveis de espaço e tempo de tal maneira que seus personagens podem morrer e ressuscitar e se metamorfosearem uns nos outros.

O deserto do calor em Lawrence da Arábia (Lawrence of Arabia, 1962), de David Lean, só pôde ter existido porque anteriormente houve uma engrenagem em forma de montagem, sintetizadas por penumbras e sol, pela imensidão do espaço que o filme se prontificou a transmitir. Todos esses artefatos são indiscutivelmente cinematográficos, são engrenagens que o cinema absorve como também absorve suas “desengrenagens”, suas possibilidades de antíteses. Absorve também a noção que Grillet tem de desconstruir os cânones da imagem, mas suas intenções apócrifas em L’Éden et Après parece sucumbir a demasiada exigência de sua – tentativa de – ruptura.

Ricardo Lessa Filho

Agosto de 2012


ISSN 2238-5290