Le Jeu Avec Le Feu (1975, Alain Robbe-Grillet)

Em pelo menos dois de seus ensaios, Walter Benjamin pontuou a questão do divertimento mobilizado pela máquina como o sintoma de uma experiência profunda buscada pela humanidade de seu ponto de partida, de uma situação existencial esvaziada de significados e códigos sociais. “História Cultural do Brinquedo” e “Brinquedo e Brincadeira” (ambos traduzidos e publicados nas Obras Escolhidas) são reflexões que contextualizam o uso de mecanismos e protótipos humanos — os bonecos — na relação que nutrem com o imaginário lúdico dos jogos e invenções, também científicos, a partir do séc. XIX. De suas conclusões emerge o inquietante conceito da ‘emancipação subversiva’, proveniente do poder obtido pela repetição que orienta todo ato de brincar; pois se nos divertimos desde a infância com a manipulação de simulacros, estes esboços inacabados do corpo humano, é porque exploramos uma perversidade original, uma espécie de violência subconsciente que conjuga o amor e o jogo como variáveis de uma mesma fórmula; como diz o pensador, regidos que somos por uma “obscura compulsão da repetição que não é menos violenta nem menos astuta na brincadeira que no sexo”.

O cinema de Alain Robbe-Grillet, sob diversos aspectos, filia-se a esta compulsão de existir para a brincadeira — e que se entenda a amplitude do termo em Benjamin, para o erotismo —, sendo cada um de seus filmes o espaço aberto para a diversão de seu diretor e público. As amarras lógicas que fazem de cada título um reino de absoluta autonomia e subversão, evidenciam esse gesto dominador, cenário de repetições que não se decifram, mas coadunam as margens do que é possível dentro de cada instrução. Pois instruídos somos por Robbe-Grillet a encarar suas obras como espelhos enviesados da realidade, cristais quebrados de um delicado brinquedo feito justamente para o esfacelamento. Se os personagens (especialmente femininos) de seu cinema nos são apresentados como autômatos — todos herdeiros de Hoffman —, isso acontece porque a própria dimensão estrutural deste universo é atravessada por uma mecânica rigidamente controlada pelo criador. Grillet faz de cada filme seu boneco particular, engrenagem que se encaixa apenas dentro de suas convenções, daí não ser possível discutir moralidades ou justificativas subjetivas. O brinquedo é dele e entra na roda quem aceita as suas regras.

Nesse sentido, Le Jeu Avec Le Feu é dos trabalhos que mais longe vai no projeto emancipatório do diretor. Como notamos desde o título, o Jogo de Fogo aqui proposto é artifício que queima, que derrete os valores externos aos delimitados por seu enredo. E o mais interessante é que a brincadeira se desafia a si própria, não escondendo os mecanismos acionados para a ilusão. Daí vermos seu protagonista (Jean-Louis Trintignant) assumindo a consciência da câmera, envergonhado ante o olhar do público nas preliminares do sexo, ou esbarrarmos com coadjuvantes que questionam sua posição dentro da narrativa e, consequentemente, sua função no jogo maior. Robbe-Grillet incendeia as ações de seus bonecos (os atores) sem preocupar-se com o fogo que também pode alcançar as propriedades da linguagem que usa. Por isso a constante impressão de um filme ao qual colhemos pouco mais do que as cinzas, restos de um cinema perecível que encontra seu valor nesta justa consciência do fim.

Le Jeu brinca com os mesmos atos de repetição visitados por Benjamin, na diversão e no sexo, estabelecendo situações de um sadismo latente. Com a bela jovem (Anicée Alvina) que se vê sequestrada e conduzida a uma casa de orgias pelo próprio pai (Philippe Noiret), acompanhamos o enredar de corpos que se prostituem contra a vontade, esvaziados que são pelo fetiche peculiar da imagem, esta grilletiana que também guilhotina toda liberdade de encenação posterior às câmeras. São como fantoches do olhar, estes seres que trans(it)am e se repetem incessantemente em seus prazeres, dores e anseios, filme a filme, na carreira de Robbe-Grillet. Encarnações de um desejo que não obedece a parâmetros além dos seus e que se renovam a cada gozo, gesto ou corte fílmico. Le Jeu é, dentre as mais obscuras perversidades do diretor, aquela em que ele mais fundo avançou no sentido de se expor, como uma criança que assume a gravidade dos atos justificando ter sido ‘apenas uma brincadeira’. Gracejos à parte, um filme que marca em brasa o imaginário de seu diretor, que prenuncia certa declaração feita pelo mesmo, anos depois, quando afirma: “Eu não sou politicamente correto, eu não sou sexualmente correto, eu não sou literariamente correto.” Aí um filme que atesta a necessária incorreção do cinema.

Fernando Mendonça

Agosto de 2012


ISSN 2238-5290