Trans-Europ-Express (1966, Alain Robbe-Grillet)

Somos todos espiões. Nós, que não nos cansamos de observar vidas em movimento, imagens geradas pela ilusão da aventura, avatares de corpos que se travestem, se renomeiam, se reinventam a cada nova iluminação, aproximação de câmera, cada violação de uma identidade perdida. Desta consciência voyeur, Alain Robbe-Grillet extrai toda a essência de sua verve criativa, projeto atrás de projeto calcado pelo entrelaçamento de olhares indiscretos, impudicos, instauradores da obscenidade. Conteúdo que alimenta Trans-Europ-Express e faz dele o filme em que o diretor mais longe foi na abordagem da observação que inventa, que cria mundos e realidades tão ou mais factuais do que os desconhecidos pelas câmeras.

O que temos aqui é mais do que o desnudamento de um dispositivo, do que uma reflexão sobre a crise típica aos metacinemas do pós-guerra — formados por uma nata da autoria que atravessa nomes como Fellini, Godard, Fassbinder, Truffaut, assim como pela geração seguinte, de Wenders, Garrell, De Palma, etc. —, pois o que Robbe-Grillet faz, muito distante (ainda) de experimentar qualquer sombra de impotência, já que, evidentemente, deslumbrado pelo mecanismo do cinema, é colocar em cena o arsenal de possibilidades narrativas numa forma que, longe de questionar as limitações e propriedades de sua linguagem (o que fazem os diretores antes citados), atropela estes entraves e rende-se ao gozo de um jogo que é sempre vencido pela simples condição de narrar.

Daí a emblemática posição de Robbe-Grillet, diretor personagem de seu próprio filme, dentro de um trem em movimento a criar situações e dramas diante da observação que faz de um homem comum logo assumido como um ente de representação, um corpo-intérprete de ator, ao qual pouco importam os nomes dados pela ficção se ao final de tudo guardamos apenas seu nome de batismo: Jean-Louis Trintignant. Conscientizados do artifício desta presença simbólica, acompanhamos uma série de processos e retrocessos que inserem Trintingnant numa trama de espionagem que não poderia ser melhor colocada por Robbe-Grillet ao discutir os rumos que uma linguagem toma para dar forma a alguma dimensão emocional dos sentidos.

Desde sua literatura, Grillet nos oferta mundos que subsistem apenas pela contemplação das coisas (não por acaso ser o Novo Romance Francês também conhecido como uma Escola do Olhar); contemplação que, ao contrário da que vemos no cinema contemporâneo — esta em que os fluxos do tempo são diluídos num prolongamento da duração moderna —, preocupa-se mais em estabelecer conexões (a)temporais, em exercitar um ritmo de montagem muito mais próximo ao que se viveu no cinema do início do século, mais especificamente, entre as vanguardas dos anos 20. É por isso que Robbe-Grillet se confunde entre os nomes de seu tempo, não se encaixa em nenhuma escola, porque sua compreensão do cinema continua lá atrás, num passado que pode ser tachado de antiquado, mas que não deixa de guardar certas verdades fundamentais aos que assumem a câmera como forma de escrita.

Trans-Europ-Express, este aglomerado de recortes do mundo, ficcionalizado por uma montagem que procura o caráter novelesco (do trillher, da ação-fetiche que preenche o imaginário do cinema espetáculo), é o filme em que Robbe-Grillet assume de uma vez por todas ser o dono da brincadeira, ultrapassando a psicologia de L’Imortelle (1963) para finalmente mostrar a que veio sua decisão de burlar as palavras, de trair o seu casamento com a literatura para encontrar no cinema uma liberdade típica dos amantes que, escondidos, vivem as maiores aventuras de suas vidas. O movimento que permanece da descontinuidade dos cortes em seu filme, do erotismo que emana dos corpos e dos planos que os registram, fica muito bem representado pela descolada sequência — pois se tudo é desencaixado aqui — da mulher que, já no final da projeção, exibe um número sensual de nudez com correntes que a escravizam. Cena das que melhor concentram uma proposta de cinema, talvez a mais impressionante que Robbe-Grillet tenha filmado em sua vida, não é preciso muito para explicar o fascínio que ela exerce, o sentido que ela concentra de abrigar todo um domínio da exibição direta, do mundo que posa para o olhar excitado, contaminado pela autoridade de conferir/destituir significado ao que vê. Cena que não se explica, como a vida, como aquele joguinho misterioso que se repetia em Marienbad, com palitos de fósforo e cartas de baralho, no qual sempre vencia o mesmo homem, o que fingia ensinar as regras. Cada filme assinado por Robbe-Grillet é como uma partida daquela brincadeira, em que não vemos a trapaça, não encontramos a solução, mas saímos profundamente desconfiados e, por que não assumir, deslumbrados com sua capacidade de nos iludir, de nos entreter até o instante final e perpetuar uma vã esperança de vitória. Se é o cinema que sempre nos vence.

Fernando Mendonça

Agosto de 2012


ISSN 2238-5290