Un Bruit Qui Rend Fou (1995, Alain Robbe-Grillet)

É da imagem o sangue.

De sua mortalidade impressa, do luto que a aprisiona em formas, contornos do que se foi. Escorrem as cores, os fôlegos, os lamentos do que a moldura não suportou. Despencam as horas, os ponteiros fundidos, grãos da areia que alicerça o mundo. E com eles vão nossos pés, impressão de realidade que sustentava, que clamava por alguma verdade e se deixava romper, na fina camada de uma projeção de cinema.

Os últimos filmes de Alain Robbe-Grillet, espaçados no tempo por décadas inteiras, são trabalhos que já não carregam o deslumbre dos primeiros passos. Sua autorreflexão, ao menos desde La Belle Captive (1983), transfigura-se de ironia em melancolia, de brincadeira em aposta que arrisca a vida. São espaços que já não sorriem, dolorosamente encarcerados pelo irrecuperável tempo, cada vez mais reduzido, ilusório, fictício. Pois se desde seus primeiros anos com o cinema — da época em que ainda assinava Marienbad —, Robbe-Grillet já compreendia a Imagem pela sua ausência de pretérito, pelo verbo sempre presente que a faz ser, nestes momentos finais de carreira ele afunda bem mais a compreensão narrativa que sempre o orientou, ou melhor, a desnarrativa que sempre buscou.

A estranha ilha grega em que transcorre a duração deste Un Bruit Qui Rend Fou, por exemplo, é um local em que nada acontece, segundo atesta seu próprio narrador, repetidamente; lugar em que nada, nunca aconteceu. A ausência de ações e o esquecimento letárgico afundam os habitantes da região numa espécie de domínio paralelo ao universo, de dimensão fugidia ao naturalismo do mundo e das relações sociais. Cenário perfeito para Robbe-Grillet construir mais um de seus painéis oníricos, inverossímeis, para lapidar este cinema sem tempo, que por dominar tão cruelmente o ‘seu tempo’ terminou por perdê-lo.

Em linhas gerais, o filme conduz um roteirista à loucura — mais do que representar um processo, é filme que em si processa a preocupação dramática —, o velho Nord (Charles Tordjman), protagonista narrador que sofre as (in)ações de Un Bruit, mas que também as cria, ao proferir oralmente a estrutura de seu roteiro, dando à luz cenas que se desenvolvem com/sem a sua presença. Precisamos ouvi-lo determinar se é numa externa ou interna, se é dia ou noite, para enxergar a materialidade do filme. E assim acompanhamos um enredo que se escreve no momento de seu acontecimento, ou no caso, em sua descrição do que não acontece. Se considerarmos que Nord origina um roteiro a despeito de sua escrita (ele ‘fala’ e grava o texto numa fita magnética), sempre disposto a voltar e apagar o passado, ou seja, as imagens que já vimos, perceberemos que Robbe-Grillet há muito deixou de medir os limites de sua manipulação. Ora, não acreditamos mais no que se grava, se filma, no que se deixa fotografar do mundo, se tudo permanece à mercê do apagamento.

E por isso sangram os restos do tempo. Porta-retratos, maquinários, memórias vencidas. Pela mesma carência que culminará numa estranhíssima cena de sessão espírita, em Gradiva (2006), com uma médium possuída pelo espírito de Proust. São enredos habitados por fantasmas, estes do cinema que Robbe-Grillet evoca; cinema que já despiu da morte o horror, e por isso assume-a como elemento-chave da fantasia. São os corpos de seu reino imaginário, derivações de zumbis, como este do enigmático Frank (Fred Ward), morto-vivo que aterroriza o roteirista de Un Bruit, responsável por um assassinato e por isso amaldiçoado a retornar, anualmente, para a ilha esquecida no mapa. Seja aqui ou em Gradiva, filmes irmanados por uma constrangedora seriedade, é o tempo perdido que atesta a degradação: da psique, da carne, da libido, da estética.

Junto ao Ruído que Enlouquece do título, ouvimos desde os créditos de abertura uma repetição deste cinema-jogo que Robbe-Grillet não abandona. Os homens que jogam Mahjong na introdução do filme (e prosseguem por toda sua duração, sempre lembrados, até o desfecho de tudo) provocam com as pedras que batem sobre a mesa um leitmotiv carrasco, um permanente aviso de que o tempo não se interrompe, por mais que frustremos suas ações, que o aprisionemos em redomas de celuloide. Não adianta cobrir a ferida que não cicatriza.

Fernando Mendonça

Agosto de 2012


ISSN 2238-5290