Le Navire Night (1979, Marguerite Duras)

A invisível textura do desejo

Le Navire Night propõe a variante da ausência – ausência até a imagem e além dela – que funda o desejo dos amantes, que os reúnem em um amor sem objeto definido – aquele que grita à noite, que se funde com a generalidade desesperadora do desejo. Duras, então, (re)descobre a fenomenal força da solidão, da violência sem direção, do desejo-navio-sem-rota.

Uma perfeita conjunção entre dois seres abertos à generalidade do tempo – à sua fragmentação espacial, ao seu contato. Corpos embriagados pelo silêncio e ausência de um amor condenado à morte (Losey falou sobre a pena de morte nos filmes de Duras antes de qualquer um); condenação que se sobrepõe à memória, à inteligência dela, dele, do todo, de tudo. Descobrir – como se descobre a sensação do primeiro beijo de amor – aquele objeto de fascinação (aquele corpo ausente condenado à morte), o esforço final para amar – pois essa é a natureza que os liga: a inteligência de um amor sem tempo e sem corpo – a rigor um amor sem laços físicos, mas mesmo assim um amor vivo na morte, na impossibilidade de reter-se diante do outro.

A voz (e como ela edifica e comove tudo em Duras) de um desejo impossível – conhecer o objeto do fascínio, mas sem força suficiente para tal. As vozes dele e dela que se cruzam pelo eco do tempo e espaço (então o verbo comuta o corpo, a silhueta; é a fração final da possibilidade da recordação, ou seja, da existência da memória do tempo, do filme – do cinema – em si). O objeto desse amor (ele, ela, ambos, who knows?) se retira ao terreno do impossível, a partir de onde toda essa história amorosa desses amantes não será nada mais senão a evocação desse amor desvanecido, ou, o que dá no mesmo, seus desejos serão sempre idênticos (tocar-se, o que parece improvável), frustrando as noites do navio – as noites de amor. O contato impossível entre os corpos, a confusão com o objeto desvanecido daquele imenso desejo (dele e dela); ambos não podem pronunciar “eu” porque já não mais são sós, são a partir da força desse amor, construções edificadas duplamente, pois embora distantes e ausentes na projeção da imagem (na vera, invisíveis), eles na narrativa durasiana serão para sempre dois, o “nós”.

A idêntica ausência de ambos, a perda da diferença entre o “mesmo” e o “outro”, faz com que seus corpos (na presença do verbo) se convertam em uma caverna habitada por dois cadáveres vivos – cadáveres do desejo impossível de resolver nesse duelo. Cadáveres do desejo petrificado em sua irrealizável trajetória até à alteridade arrebatadora. Suas ausências – de um para o outro – são postas em cena por Duras com tamanho desejo que chega dado momento em que ela parece não saber o que faz: frente ao oceano vazio em que o navio noturno vaga – signo de exclusão e também de ausência da representação possível daqueles desejos. O pensamento lançado ao mar sem destino como os personagens é mais um sintoma do desejo sobre o corpo, de uma palavra que quer cobrir o sentido e a sua ausência, sua exterioridade.

Ausência, exclusão, nada. O movimento da atração, a retirada d(a)o amante põe despido o que está diante da imagem representada pelo verbo, por debaixo da mutação do amor: o fluir contínuo da linguagem. Linguagem que parece sideralizar os corpos (por isso suas evanescências?), elevada à outra dimensão, linguagem que ninguém fala a não ser aqueles amantes. A linguagem desse amor (desse cinema) deixa raízes: o verbo aqui é a existência, é a compreensão do corpo invisível, do cinema invisível, da ausência – é a compreensão do amor-fantasma e infinito.

Ricardo Lessa Filho

Agosto de 2012


ISSN 2238-5290