Son Nom de Venise dans Calcutta Désert (1976, Marguerite Duras)

Não precisamos recorrer ao comentário da própria Marguerite Duras, sobre ser este o seu trabalho mais experimental dentro do cinema, se isto é coisa que salta aos olhos somente pelo seu ponto de partida. Construído, literalmente, sobre as ruínas de India Song (1975), este Son Nom de Venise dans Calcutta Désert é articulação única dentro da história do cinema, projeto que desmantela toda a estrutura de uma linguagem, de um princípio semiótico. Aqui, Marguerite retoma, na íntegra, a banda sonora do filme anterior para revisitar o palacete que também lhe servira de cenário um ano antes. Espaço agora dilacerado, arquitetura destruída pela violência do tempo, estuprada por uma cultura de guerra, a ecoar as vozes dos fantasmas que agora habitam o seu vazio físico, morto.

Son Nom de Venise continua o procedimento iniciado pela diretora desde La Femme du Gange (1974), de elaborar dois filmes em um só material: um filme na imagem, um filme no som — e que ela prosseguirá em futuras obras-primas, como nos curtas que assinará entre 1978/79 e Agatha (1981). As integrações de sentido decorrentes dos corpos que atravessam a tela naquela primeira experiência, e que também percorreram India Song, agora extrapolam qualquer noção de limite narrativo por já não contemplarem os corpos das vozes. Se antes pensávamos no desaparecimento da figuração humana, aqui já adentramos num apagamento prévio e total dos signos, pois nada sobrou da humanidade senão a memória que o espaço dela guardou.

Toda a duração deste trabalho, cronometricamente igual à de India Song, serve para problematizar um cinema que emerge da destruição. ‘Aguentamos’ a longa jornada das vozes sabendo que o único saldo do passado é a dor, que toda a beleza apodreceu com o decorrer do tempo, e que mais nada pode ser feito para resgatar das trevas a imagem restante. Daí serem todas as cenas internas de Son Nom de Venise, estudos de sombra, cadáveres do olhar, decalcadas pela ferrugem, pelo envelhecimento da matéria, em portas que não fecham mais, janelas que nada mais protegem, se todos os vidros foram quebrados.

Curioso que o próprio India Song já era filme regurgitado dos restos literários de Marguerite. Seu roteiro, repleto de fragmentos extraídos de três de seus melhores livros (Le Ravissement de Lol V. Stein, L`Amour e India Song), prefigurava esta teia de significados, conflito de ecos históricos e ficcionais. Agora, ele surge como liquidificado, espremido até o sumo para que a nova experiência se complete. As penetrações da câmera pelos espaços desertos de Nom Som Venise são a derradeira violação do olhar, a registrar-se os últimos e cruéis planos com as aparições de Delphine Seyrig e Nicole Hiss, materializações profanas da morte, como congeladas no tempo e na escura atmosfera de uma sala que lembra um cinema. São elas espectadoras de uma realidade perdida, da qual um dia fizeram parte, mas que agora não passa de túmulo.

Fernando Mendonça

Agosto de 2012


ISSN 2238-5290