Il Dialogo di Roma (1983, Marguerite Duras)

Não são poucos os artistas que em determinado momento de sua carreira terminam meditando sobre suas próprias obras através de uma ou outra obra específica, se não assumindo e parodiando seus clichês, naturalmente usando esse referencial de recorrências para instaurar o início de uma guinada. Il Dialogo de Roma parece esquadrinhar Marguerite Duras, explicitando seus ritmos de criação não como um paradigma fechado, encerrado enquanto processo criativo, também não necessariamente uma lógica produtiva que não sabe onde vai desembocar, cujo pensamento nasce junto com a escolha das palavras e imagens, mas como um filme em que os quadros parecem nascer ao lado do olhar do espectador sobre estes mesmos quadros, de modo que a narração falsa só passa a ter sentido – ainda que um sentido aberto e embaraçoso – quando finalmente se transforma em uma segunda experiência (a primeira seria a que desperta a vontade de contar). Duras filma Roma contemplando com especial interesse sua arquitetura e suas sombras, mas o material bruto encarna sua potência enquanto filme apenas quando diante das imagens registradas, talvez incerta do filme que fez, está fazendo ou irá fazer, senta ao lado de um rapaz e narra.

Os longos planos-sequências com silhuetas de uma cidade escura, onde tudo se funde e se mistura, ganham contornos individuais nas falas de um e do outro, arrastando a incerteza da penumbra para formas coletivas. A cidade aparece como uma representação da eternidade, dos vestígios de diferentes épocas enfileiradas como um tabuleiro preparado para o anacronismo, cada casa carrega uma temporalidade e pode ser cruzada aleatoriamente com qualquer outra. Roma é uma cidade de combinações. Novamente somos inundados de corredores, praças, fontes e estátuas que não necessariamente correspondem ao interminável diálogo dos amigos, amantes, daquelas histórias não bem localizadas numa precisão mnemônica e, ainda assim, narradas sem cansaço. Contudo, dentro da prática cotidiana dos romanos, o hábito esmaece o engajamento no jogo, gerando um temor da Roma das ruínas, como se cada coluna, cada pedaço de pedra reafirmasse uma presença passada, dessas que não podem apelar à ausência para alcançar o esquecido. No meio de um romance esvaziado, da arquitetura que não pode ser negada diante dos olhos, ela, talvez Duras, descobre que diante de um inferno de silêncio, nasce, enfim, os desejos definitivos.

Rodrigo Almeida

Agosto de 2012


ISSN 2238-5290