Le Camion (1977, Marguerite Duras)

O caminhoneiro fantasma

Le Camion nos oferece a possibilidade de um amor que, como o nomadismo, responde a uma relação que a posse já não mais satisfaz aos corpos.

Um filme sobre a distância espacial entre o fantasma e seu espectro no ar do tempo, uma obra sobre a rememoração dos cosmos do amor, essa questão celestial que a tudo invade que os faz permanecer como espécie descorporalizada porque já não se encontra mais a finitude de uma “vida” senão na memória daquele resgate de todas as outras “vidas” que jamais se extinguirão – pois não estão atadas a qualquer prisão tumular, a qualquer decalque somático de realidade: o que existe são espasmos, o inconcreto, o vulto e sua forma na ausência pulsante dos travellings que divagam pelas cores e horas do dia, de dentro de carros.

Fantasmatização narrativa da aventura a flutuar pelo caráter do desprendimento espacial. A viagem, o caminho em si (qual caminho? o que nos é mostrado é uma estrada sem direções prováveis ao longo de todo o filme, uma rodovia sem fim, sem começo), desligado do objetivo (ou do objeto) preciso: a “fábula” de um caminhoneiro dirigindo por toda noite até o amanhecer na companhia de uma mulher de “certa idade”, se alterna com a conversa entre Duras e Depardieu, que tentam construir o roteiro imaginando o condutor do caminhão e discutindo sobre as emoções que pretendem descrever.

O fantasma inconsciente do caminhoneiro e sua carona que jamais aparecem, e, na riqueza desse extracampo (sempre valiosíssimo no cinema de Duras, posto que é sobre ele que todas as vozes, aqui, dão alma e drama), apenas nele, é possível descobrir a potência dessa imagem que é a própria contra-imagem do caminhão – a história da Palavra que se dispensa aos ectoplasmas das vias, dos cenários, do celuloide, do papel escrito e declamado pela devoradora melancolia que é a linguagem – em dialeto – da dor.

Ricardo Lessa Filho

Agosto de 2012


ISSN 2238-5290