Dia 1: Shadows (1959)

Gilles Deleuze diz, em seu livro A Imagem-Tempo (p. 231, 32), que os personagens de Amantes (1984), de John Cassavetes, existem a partir dos corpos dos outros que os cercam. É bem verdade, no filme, esta suposta inversão da máxima de Sartre (de que “o inferno são os outros”) até o ponto em que descobrimos, em Shadows (1959), que amar, também a partir da noção do outro, é algo bem complicado, mas profundamente possível, o que legitima a frase de Deleuze e todos os filmes de Cassavetes.

Para os personagens do filme, a vida está de fato transcorrendo nos movimentos que eles executam ao lado dos amigos e a partir dos movimentos que estes fazem ao seu respeito. Daí que tenhamos o músico negro, que vive sua vida profissional dada às mãos do seu agente e que exista uma cena em particular bastante tocante neste sentido, aquela em que Lelia (Lelia Goldoni) faz sexo com Tony (Anthony Ray) e, em seguida, diz que descobriu a vida. O afeto do outro acaba por fazê-la descobrir algo que, afinal de contas, se revelará doloroso o suficiente para acionar as inconstâncias de registro e do ato de compreender o amor como um bravo estado de coisas no cinema de Cassavetes.

Do improviso que é Shadows, sobressai-se justamente isto, a incursão pela necessidade de amar e pela necessidade de instaurar a ficção quase que à força, ao lado da tal realidade (da interpretação, das ruas, das ruas recebendo interpretação). Instaurar, no caso, quer dizer impor pela narrativa o parentesco que parece impossível entre um negro, uma mulher branca e um homem de traços latinos e tratá-los como irmãos e, mais belo ainda, como extensões que dependem umas das outras para sobreviverem aos atos falhos (a montagem do filme é quem determina até onde vão as emoções) de Shadows, que são tomados pela força deste amor fraternal, completo e filmicamente instável. Afinal, as mais belas cenas de amor de Shadows (e de Maridos, 1970; e de Assim Falou o Amor, 1971; e de Uma Mulher sob Influência, 1974, etc.) são arquitetadas dentro de violentos de conflitos entre os corpos dos personagens, que necessitam, sobretudo, de amar e serem amados.

Ranieri Brandão


ISSN 2238-5290