O Sabor da Madeleine

Estranha sensação não sentir que sou eu aqui, nem outra pessoa, mas simplesmente sentir que não existo. Efeito decorrente de um baque na realidade, quando a passagem da ficção de volta à vida é brusca a ponto de nos deixar confusos quanto à nossa identidade, ou mesmo quanto à própria existência. “Quem sou eu?” é pergunta demasiado longeva e a obra de arte não é tanto uma tentativa (frustrada?) de respondê-la quanto uma operação em que se enxerta à vida mais uma camada a se desvendar. O ato de desmistificar nossa existência não é uma operação em que se retira suas camadas como de uma cebola para deduzi-la em seu âmago (pois na cebola não há núcleo irredutível); corre-se mesmo o risco de não chegar a lugar nenhum, de correr em contradição – chegar ao espaço vacante em que a vida surge em revolta ao determinismo da infecundidade do vazio. Trata-se do modelo da cebola – acrescentar para avolumá-la, ao invés de desconstruí-la para se deparar com o vazio. Não é nem mesmo um retorno à idade primeva, como recomenda o método psicanalítico de fabulação na qual o especialista ao lado do divã inscreve todo um mapa traumatológico do paciente.

Proust não escreveu Em busca do tempo perdido como uma recordação em que se volta os olhos para o passado e nele se perde, em vã e teimosa nostalgia. Pois, à experiência do sabor da madeleine umedecida ao chá, decorre toda uma reviravolta no próprio tempo verbal do texto, em que toda a descrição de sua experiência sublime, quase numinosa, se passa no presente do indicativo, como se o verbo enlevasse o herói a um estado de transe perpétuo, fazendo-o despontar do recôndito de sua memória paisagens esquecidas, rotinas mundanas, todo o sabor do cotidiano singelo de sua infância, para enfim imergi-lo na nostalgia do pretérito imperfeito que torna indistinto todo o passado. É na memória que Proust vai buscar uma resposta (muito mais uma lacuna em que se possa preencher de vida), não para definir a partir da vida pregressa, conforme leis de causalidade, a vida presente do herói, mas para acrescentar nele uma vereda e uma bifurcação às quais pode sempre retornar ou prosseguir. E até mesmo o verbo “retornar” torna-se impróprio segundo a noção heraclitiana do tempo que trago aqui. Tanto impróprio quanto inviável, aliás, pois o próprio narrador de Em busca do tempo perdido fala em criar, ao invés de recordar – retornar, voltar, trazer de volta o que se foi. A obra de arte não é, portanto, uma equação matemática em que se deduz um resultado, potencialmente inscrito nos próprios termos não calculados da equação, mas uma resposta, não menos inventada que deduzida, que se soma indefinidamente a outras e que não definem resultados conclusivos, mas que os prolonga pela eternidade.

Pois então, não é também uma experiência estética a experiência gastronômica do sabor da madeleine molhada no chá? Não é essa experiência que deflagra no herói toda a narrativa que se seguirá das aventuras e descobertas de sua infância? E além disso, não sendo um livro só de memórias, não é tanto um romance inteiramente fictício; pelo menos trata-se de um livro de memórias inventadas, pois é parte da vida de Swann que o narrador buscará enxertar em suas próprias memórias para dar conta de sua própria vida. A experiência estética que se dá a partir do sabor da Madeleine se desdobra no herói de forma fecunda, dilatando sua sensibilidade. Lembro-me de uma citação atribuída a Kant, a qual diz que o sentimento da nostalgia é um sentimento que define moralmente a sensibilidade de um indivíduo, que contribui de forma determinante nos dilemas que enfrenta na vida.

Stroszek (Werner Herzog, 1977)

Gostaria de descrever minha relação pessoal com a imagem, por um gesto não menos narcisista que auto-explicativo:

Filmes bons, aliás, mexem comigo de duas formas diferentes: ou me sinto pleno, diluído no mundo, nas coisas ao redor (preenchido por elas); ou desolado – sentimento de impotência, de falta de movimento, uma prostração hipocondríaca, dessas ensejadas pela nostalgia mais opressora. E talvez seja mesmo um sentimento de nostalgia do que estamos falando, um desejo calado pelas imagens que já começam a evanescer na memória como por uma vida não vivida (clássica nostalgia que acomete os adolescentes da nossa geração apaixonados por Maio de 68 e pela geração paz e amor). E é esse sentimento de desolação que me atinge agora. Eis que não me sinto aqui, nem agora, só uma deriva no tempo, num segundo adimensional, um segundo para o qual nenhum ponteiro de relógio pode apontar. Um entre-segundo, uma fração de segundo, subdividido ao infinito, um Aquiles que jamais alcançará a tartaruga.

No final das contas, sempre pensei: boa hora para se matar aquele momento desolador depois da sessão. Ian Curtis o fez, viu Stroszek, de Werner Herzog – filme extraordinário! – e se enforcou. Imagino-o diante da TV, preparando-se para o grand finale enquanto na tela o caminhão de Stroszek anda em círculos, sozinho, ao som de um country americano, enquanto o próprio Stroszek prepara seu suicídio. Dentro do salão dos teleféricos, o rapaz aciona todas as máquinas, cria um caos: a galinha não para de dançar, o coelho bombeiro também está agitado e, ao final, ninguém consegue parar os teleféricos acionados por Stroszek e num dos quais ele se mata – sequência incrível de tão cruel. É tentador contrapor o suicídio de Ian Curtis ao de Stroszek, ainda que possam decorrer de experiências distintas, e emparelhar as duas imagens: imaginar o cantor ao som caótico das máquinas da galinha dançante e do coelho bombeiro e da música country, antes de cometer o ato definitivo – seria uma mise-en-scène atraente, mas obscena. O filme Control evitou o risco de tamanha vulgaridade – e creio mesmo que nenhum filme sobre o cantor se dispôs a mostrar os movimentos que precederam o ato suicida. A verdade é que talvez não importem tanto as experiências que levaram ao ato, mas o ato em si, enquanto ruptura numa sequência de causalidades – não enquanto ponto culminante, determinado por uma linearidade lógica, mas justamente enquanto revolta, subversão dessa lógica. Não quero discutir o que é o ato suicida, como se define para nós, mortais e ainda vivos, e de que maneira ele se constitui como ato político (para isso temos Camus). Ademais, pode ser tema para outro dia. Importa aqui dizer o quanto, esteticamente, seria atraente enxergar Ian contraposto ao filme de Herzog. Lindo, mas trágico, embora toda tragédia venha aureolada de uma beleza nobre e cruel.

No silêncio da noite, numa madrugada fria e hipocondríaca, um filme derradeiro e um gesto definitivo. Creio que um Ian Curtis morre em mim toda vez que vejo um filme – um filme que me arrebata. Eis aquele momento insólito em que percebemos o quanto a vida é bela e quanta tragédia e crueldade há por trás dessa conclusão. Sempre tenho a sensação de dois rios violentos que se chocam – duas emoções irresistíveis que acabam por não se distinguir. Creio que morro um pouco, uma morte pequena, toda vez que vejo um filme. É sempre um pouco de mim que vai embora e um pouco do outro – aquele ser indefinível – que fica e passa a me constituir.

Álvaro Brito

Outubro de 2012


ISSN 2238-5290