Fantasma (2006,               Lisandro Alonso)

O esvaziar da tela, o apagar da luz, mecânicas de uma encenação cega, ofuscada pela ausência sofrida por um tempo que não mais deseja, mas lateja, uma fina teia de matéria. Fazer um filme, para Lisandro Alonso, é lapidar um espaço-dimensão, torná-lo concreto, ainda que de maneira agonizante ou moribunda. Da crueza que se concentra nos poucos títulos que o tornaram um expoente do jovem cinema argentino, seu filme Fantasma, é dos que mais terrivelmente atestam uma fragilidade particular ao ente cinematográfico, seja pelo exorcismo narrativo, como pelo perecível estado do que é físico e consequentemente filmável.

Da sinopse, temos um homem solitário que, numa sala de cinema, assiste a si próprio na tela. Este homem é Argentino Vargas, cidadão argentino, presença protagonista da película antecessora de Alonso: Los Muertos (2004). Mesmo filme exibido no cinema de Fantasma, exatamente na sala do Teatro San Martín, único lugar onde Los Muertos fora realmente projetado quando de seu lançamento em Buenos Aires.

Se as fraquezas do espaço finalmente se revelam no cinema de Alonso, isso acontece porque o espaço de seu interesse volta-se justamente para um lugar de lugares: a sala de cinema. Já não cabem os jogos de ficcionalização recorridos em seus filmes anteriores se agora é o próprio olhar ficcional o ser narrado, despido, abandonado pela ética do pseudo-documental. Fantasma é sim uma farsa, mas também é registro de fatos. Labirinto de corpos impossíveis e estranhos, perversidade do movimento. Nele, Alonso reintegra todos os elementos de sua trajetória (Misael Saavedra, protagonista de La Libertad – 2001, também atravessa o cinema de Fantasma) concluindo não só o que ficou considerado uma trilogia particular, mas encerrando um posicionamento diante da imagem, de sua exibição, do tempo que decorre entre uma e outra, e que permanece.

Desde o título, eis um filme que evoca toda a complexidade do que geralmente se dissolve no gênero (do horror). Trabalho que pesa no corpo de seus atores, no deslocamento dos espaços, uma força quase sobrenatural, diluída por cenas que não reduzem o estranhamento das situações, em portas que se movem sozinhas, luzes que piscam incessantemente, vazios que não se preenchem por um movimento que seja visível. Há toda uma reflexão do que é possível ver neste cinema-universo, dimensão etérea de uma cidade que não passa de vidro. E por isso a importância de se reter a maneira como Alonso constrói o interior de sua arquitetura, contraste que sofre diante das grandes portas divisórias, responsáveis pelo afastamento das ruas, pela proteção contra um ritmo e movimento que não podem ser os mesmos dos fantasmas que ora habitam o Teatro San Martín.

Os longos planos deste interior, sobre corredores, escadarias e banheiros, são todos típicos de um esvaziamento que recorda, do Hotel Monterey (Akerman) ao Hotel Overloock (Kubrick), tratamentos que fazem do espaço a passagem, um recorte que aproxima e elimina o contato do homem com seu meio. Ainda que o prédio do cinema não hospede ninguém, como nos filmes de hotéis, ele também não passa de um grande refúgio para o dormir dos filmes, das imagens que já não encontram morada fora dali. Por isso o ecoar das lembranças, no filme de Alonso, surgidas a partir de outro filme-monumento sobre a sala de cinema (Goodbye, Dragon Inn, 2003), termina como contraposição ao que de melancólico carrega o referido título asiático. Enquanto Ming-Liang registra a decomposição de um corpo-cinema, a lenta agonia de um local à beira da morte, Alonso encontra no cinema de seu filme um já estabelecido sepulcro, lugar onde não se encaixa a nostalgia. Podem ser faces de uma mesma moeda, mas não se confundem pelo eixo de seu reflexo.

Finalmente, Fantasma é o trabalho em que Alonso integra a espontaneidade típica de suas câmeras ao que de mais profundamente manipulável pode ocorrer dentro de uma imagem. O equilíbrio da operação, em cada uma de suas cenas e escuridões, resulta num filme-arquivo da condição que o olhar cinematográfico encontra neste início de século. Filme que arquiva a dor do próprio ato que lhe guarda, rotula e termina por esconder do mundo que lá fora ainda gira. Gesto de uma consciência que não atenua sua própria extensão, que não se omite em assumir uma falibilidade base de seu existir. Ainda que sua projeção termine em tempo tão restrito (pouco mais de 60 minutos), Fantasma é espectro que permanece exibido na mente de quem o prova, experiência que desafia o esvaziar da tela e o apagar da luz.

Fernando Mendonça

Outubro de 2012


ISSN 2238-5290