O Fantasma de Longstaff (1996, Luc Moullet)

Os olhares que se desencontram, os tempos que não se conectam, são a matéria-prima da primorosa encenação conseguida por Luc Moullet no curta que perfaz a sua leitura do inquietante conto de Henry James. Mais do que transpor o estranhamento de uma narrativa, eis um filme que registra o espaço de uma distância, o abismo que impede a correspondência de um amor (impedimento tão somente vinculado ao olhar). As reviravoltas do casal protagonista — ele, que a ama, mas não é amado, que morre para ser notado; ela, que passa a amá-lo quando o vê fantasma, e assim, também beirar a morte —, desenrolam-se sob uma frontalidade de planos e imagens que em muito dialogam com os melhores e mais recentes trabalhos de Manoel de Oliveira. São mise en scènes da ausência, do que se perdeu no tempo. Exercícios de cinemas que controlam, sob rígida aparência, uma sensível e apaixonada observação do valor afetivo que impregna a imagem de vida. No caso de Longstaff, um amor que só poderá ser debilmente consumado, após ambos os amantes se assumirem como seres visíveis um para o outro, não importam as fronteiras da morte. Daí, imagens que oscilam dentro da incerteza, que nos incomodam ante um desfecho que, em si, não carrega qualquer mistério, mas que, em nós, aprofunda um enigma. Se o poder de uma imagem no cinema é definido pelo seu corte, aqui um filme que se apodera do espectador exatamente quando termina. Prova de que alguns cinemas não encontram fim.

Fernando Mendonça

Novembro de 2012


ISSN 2238-5290