Duas mulheres, dois destinos: NANA

O que NANA poderia ter de comum, um enredo sobre música e amizade, é o palco para o que de mais singular essa série japonesa nos traz. Se nos prestarmos a ler as sinopses que são disponibilizadas acerca da série, talvez a tendência seja a de enquadrá-la num patamar de qualquer outra história do gênero shoujo (histórias voltadas para meninas). O site da JBC, distribuidora do mangá (história em quadrinhos japonesa) aqui no Brasil, expõe mais ou menos o enredo de duas garotas que têm o mesmo nome (Nana) e se encontram num trem só de ida para Tóquio. Oosaki Nana e Komatsu Nana, apesar de terem o mesmo nome e a mesma idade, seriam duas garotas com estilos e comportamentos completamente diferentes: uma está indo a Tóquio em busca do namorado e a outra em busca de um sonho, tornar-se vocalista de uma banda famosa.


Mas, acima de tudo, a série fala de sentimentos. Tentando recolher alguns desses sentimentos e colocá-los numa lista, surgiu-me uma enorme variedade: amor, traição, renúncia, solidão, resistência, escolhas, vazio… São alguns dos que enumerei. Mais do que falar das duas garotas, o anime e o mangá falam da construção de personalidades, dos relacionamentos e envolvimentos, do que se precisa deixar para trás para seguir em frente. Cada personagem acaba por falar de nós mesmos, uma vez que traz características marcantes e que juntas nos fazem pensar na constituição humana. A partir de certo ponto da história, fica difícil definir um protagonista, pois cada um aparece trazendo uma contribuição, um valor adicional a tudo o que se desenvolve.


Na série, o presente se mistura com o passado e traz o futuro, seja em palavras escritas posteriormente, quando já se sabe como será o futuro (“Ei, Nana. Você lembra do dia em que nos conhecemos?”) ou através de idas e vindas no tempo. O leitor/espectador se vê angustiado, pois as palavras do futuro nos colocam dúvidas acerca do presente, e os fatos do passado parecem vir para justificar e até nos preparar para o que vem adiante. É impossível não sentir, não ser provocado e buscar a si mesmo no desenrolar da história, pois tudo propicia a isso. É fácil sentir a solidão das personagens e nos vermos dentro do vazio que deixam e que sentem. Não se pode dizer que somente NANA provoca isso, temos algumas outras séries, como Honey and Clover (escrita por Chika Umino e dirigida por Kenichi Kasai) e Evangelion (Hideaki Anno), que vão no mesmo sentido, de buscar algo mais da essência humana, não somente um desenrolar aleatório de fatos em torno do tema a que se propõe.


É interessante observar, também, que através de personalidades tão distintas das personagens que dão nome à série, podemos ver claramente a essência feminina, dividida entre as duas. Se uma traz toda uma idealização, ideais de ser feliz ao lado de quem ama e ter uma vida simples, a outra nos mostra um lado independente, de lutar para conseguir o que deseja e ter, acima de tudo, um forte orgulho próprio (mais adiante nos damos conta de que esse orgulho é extremamente volátil). Mas essas características se misturam no decorrer dos episódios/volumes, vemos que atrás de uma personalidade forte pode existir alguém muito frágil, alguém que precisa constantemente de atenção e apoio, assim como a fragilidade pode se tornar força através da renúncia e da dor. NANA nos mostra que sofrer é necessário, que seremos ao longo da vida expostos a sentimentos contraditórios e nos veremos numa luta entre princípios e necessidades humanas. E que a única certeza talvez seja a da não-linearidade dos caminhos que tomamos ou iremos tomar.


A série NANA conta com um anime inacabado (vai até o episódio de número 47) e o prosseguimento da história se dá no mangá, que já vai no volume 21 aqui no Brasil (soube recentemente que a autora, Ai Yazawa, se encontra muito doente e a série está provisoriamente parada, ou seja, as previsões são para uma demora em novos volumes aqui no país, já que nem sequer foram produzidos no Japão). Fora isso, temos dois live actions (adaptação do anime para uma história com pessoas reais, em forma de longa metragem) referentes ao anime e alguns especiais (episódios que trazem fatos ocorridos entre um episódio e outro, que só foram lançados depois).

Ana Clara Martins

Julho de 2010

Duas mulheres, dois destinos: NANA
O que NANA poderia ter de comum, um enredo sobre música e amizade, é o palco para o que de mais singular essa série japonesa nos traz. Se nos prestarmos a ler as sinopses que são disponibilizadas acerca da série, talvez a tendência seja a de enquadrá-la num patamar de qualquer outra história do gênero shoujo (histórias voltadas para meninas). O site da JBC, distribuidora do mangá (história em quadrinhos japonesa) aqui no Brasil, expõe mais ou menos o enredo de duas garotas que têm o mesmo nome (Nana) e se encontram num trem só de ida para Tóquio. Oosaki Nana e Komatsu Nana, apesar de terem o mesmo nome e a mesma idade, seriam duas garotas com estilos e comportamentos completamente diferentes: uma está indo a Tóquio em busca do namorado e a outra em busca de um sonho, tornar-se vocalista de uma banda famosa.
Mas, acima de tudo, a série fala de sentimentos. Tentando recolher alguns desses sentimentos e colocá-los numa lista, surgiu-me uma enorme variedade: amor, traição, renúncia, solidão, resistência, escolhas, vazio… São alguns dos que enumerei. Mais do que falar das duas garotas, o anime e o mangá falam da construção de personalidades, dos relacionamentos e envolvimentos, do que se precisa deixar para trás para seguir em frente. Cada personagem acaba por falar de nós mesmos, uma vez que traz características marcantes e que juntas nos fazem pensar na constituição humana. A partir de certo ponto da história, fica difícil definir um protagonista, pois cada um aparece trazendo uma contribuição, um valor adicional a tudo o que se desenvolve.
Na série, o presente se mistura com o passado e traz o futuro, seja em palavras escritas posteriormente, quando já se sabe como será o futuro (“Ei, Nana. Você lembra do dia em que nos conhecemos?”) ou através de idas e vindas no tempo. O leitor/espectador se vê angustiado, pois as palavras do futuro nos colocam dúvidas acerca do presente, e os fatos do passado parecem vir para justificar e até nos preparar para o que vem adiante. É impossível não sentir, não ser provocado e buscar a si mesmo no desenrolar da história, pois tudo propicia a isso. É fácil sentir a solidão das personagens e nos vermos dentro do vazio que deixam e que sentem. Não se pode dizer que somente NANA provoca isso, temos algumas outras séries, como Honey and Clover (escrita por Chika Umino e dirigida por Kenichi Kasai) e Evangelion (Hideaki Anno), que vão no mesmo sentido, de buscar algo mais da essência humana, não somente um desenrolar aleatório de fatos em torno do tema a que se propõe.
É interessante observar, também, que através de personalidades tão distintas das personagens que dão nome à série, podemos ver claramente a essência feminina, dividida entre as duas. Se uma traz toda uma idealização, ideais de ser feliz ao lado de quem ama e ter uma vida simples, a outra nos mostra um lado independente, de lutar para conseguir o que deseja e ter, acima de tudo, um forte orgulho próprio (mais adiante nos damos conta de que esse orgulho é extremamente volátil). Mas essas características se misturam no decorrer dos episódios/volumes, vemos que atrás de uma personalidade forte pode existir alguém muito frágil, alguém que precisa constantemente de atenção e apoio, assim como a fragilidade pode se tornar força através da renúncia e da dor. NANA nos mostra que sofrer é necessário, que seremos ao longo da vida expostos a sentimentos contraditórios e nos veremos numa luta entre princípios e necessidades humanas. E que a única certeza talvez seja a da não-linearidade dos caminhos que tomamos ou iremos tomar.
A série NANA conta com um anime inacabado (vai até o episódio de número 47) e o prosseguimento da história se dá no mangá, que já vai no volume 21 aqui no Brasil (soube recentemente que a autora, Ai Yazawa, se encontra muito doente e a série está provisoriamente parada, ou seja, as previsões são para uma demora em novos volumes aqui no país, já que nem sequer foram produzidos no Japão). Fora isso, temos dois live actions (adaptação do anime para uma história com pessoas reais, em forma de longa metragem) referentes ao anime e alguns especiais (episódios que trazem fatos ocorridos entre um episódio e outro, que só foram lançados depois). Ana Clara Martins


ISSN 2238-5290