O Anjo da Noite (1974, Walter Hugo Khouri)

Primeiro foi preciso vencer as trevas, o medo da noite.
Depois, no vago clarão do raio luminoso, mudar de natureza e arriscar sua alma,
deixar-se lavrar e revirar pelas imagens, sementes jogadas em nós de um outro mundo.

Jérôme Prieur

Da associação que existe entre o Cinema e a Noite, a obra de Walter Hugo Khouri se revela, filme a filme, um verdadeiro alicerce. São inúmeros os seus títulos que se concentram num apelo noturno de encenação, filmes que, muitas vezes, desenvolvem a narrativa em uma ou poucas noites, no intervalo das trevas, para assim iluminar aspectos que de outra forma não seriam possíveis. Não é de espantar que, em sua primeira abordagem direta do gênero fantástico, ele opte por, mais uma vez, elaborar um painel de imagens da noite, meticulosamente organizadas para extrair do enredo um leque genuíno de sensações e tensões, num refinado tratamento de gênero que faz desta uma das melhores experiências em suspense que o cinema brasileiro, até hoje, legou.

A insistência de Khouri por este período dos tempos, sem margem de dúvida, acontece pelo mistério que naturalmente emana da escuridão. É durante a noite que se completam as maiores transformações, que o movimento íntimo das coisas se revela, longe dos olhos, fora da imagem. Este é o desafio de seu cinema: encontrar a face esquecida do mundo, por em cena aquilo que não se deve ver. Pois, quem determina o encerramento das sombras senão a própria incidência da luz? Khouri não hesita em perturbar o oculto, especialmente aqui, num filme todo formado por soturnas inquietações. O Anjo da Noite, releitura de uma tragédia verídica, mas também de todo um imaginário do horror literário, permanece como um de seus filmes malditos, que evoca desde uma relação com os cinemas admirados ao cerne de tudo o que ele próprio instaurou nas imagens de sua vida.

Logo na introdução, Khouri estabelece a distância necessária para o confronto com a Noite. Em todo o primeiro ato do filme, vemos a jovem Ana (Selma Egrei) afastando-se de seu habitat urbano, atravessando não só uma geografia, mas toda uma superfície da imagem. Como centro de interesse da câmera, Ana se desloca espacialmente, ocupando o primeiro plano absoluto e quase deixando esquecer que há vida além dela, mas também temporalmente, por adentrar numa outra dimensão de realidade. Recurso que se encaixa em toda uma filmografia do medo (de Psicose a Os Pássaros, de Suspiria a Phenomena), que se dedica a introduzir suas protagonistas num estranhamento pleno da existência, isoladas de um contexto anterior e até mesmo de suas próprias identidades. Ao chegar ao casarão em que irá trabalhar de babá, Ana não é mais a mesma Ana que fora apresentada após os créditos iniciais do filme; neste novo lugar desconhecido, ela se coloca como imagem, como símbolo da mãe (Lilian Lemmertz) que se ausentará, por uma noite, da proximidade dos filhos.

O Anjo da Noite se desenvolve, a partir disso, como um jogo de interpretações e papeis a serem representados, constituindo-se a casa que serve de cenário principal — soberba, em sua arquitetura e movimentação inerente— um grande tabuleiro, uma espécie particular de palco para o desempenho de cada personagem. Pois todas as grandes cenas do filme, especificamente, aquelas que mais aterrorizam, equilibram-se num tênue entendimento dos limites esperados para uma brincadeira. É assim com os misteriosos telefonemas recebidos, possíveis trotes que ameaçam de morte a protagonista, e também com a impressionante sequência em que o travesso menino cuidado por Ana se descuida numa brincadeira com o segurança Augusto (Eliezer Gomes, o anjo do título). Esta cena, digna das melhores antologias que se atreverem a reunir os grandes momentos do cinema de horror, representa com perfeição o caráter ambíguo e fantástico que orienta o filme. Quando, numa brincadeira de pega, que envolve armas “de mentirinha e de verdadinha”, vemos a diversão tornar-se ameaça, percebemos que há de fato uma perspectiva de cinema sendo desenvolvida na fruição do enredo. Cinema que não define as margens de segurança previstas, que não atenua a ficção para poupar o espectador de sua típica crueldade.

Não há meio termo. O rigor das sugestões só é mantido até certa altura de O Anjo da Noite, sendo totalmente abandonado em seu desfecho. Aqui um cinema que não hesita em exterminar a inocência, seja na personalidade de uma criança (Pedro Coelho, este menino chamado, no filme, de Marcelo, nome fetiche e onipresente para Khouri), seja no próprio fim que esta mesma infância encontrará no decorrer da intriga. Somos ‘revirados’ pelas imagens que encerram a noite, por não trazerem elas nenhuma esperança de engano para o que nossos olhos recebem. Aqui um filme que não amanhece.

Fernando Mendonça

Dezembro de 2012


ISSN 2238-5290