The Paperboy                             (2012, Lee Daniels)

Não existe imagem que não seja de nosso corpo.

André Masson

Não por acaso, as duas cenas mais comentadas, desde Cannes, a respeito de The Paperboy (especificamente, do desempenho de Nicole Kidman em ambas), dão conta dos principais sentidos evocados neste filme-orifício assinado por Lee Daniels. Seja no sexo virtual com John Cusack dentro da prisão, seja na urina derramada sobre o corpo de Zac Efron, fica bastante claro que a proposta de Daniels é ancorar-se numa série de motes narrativos para explorar, acima de tudo, a capacidade de sobrevivência dos corpos diante da extrema ameaça que, em si, já é o habitar de um corpo. Como sugere a imagem acima, da primeira cena citada, em que Efron assiste impotente a ‘transa sem toques’ da prisão e se vê engolido pela boca de Nicole — é poderoso o plano de câmera —, The Paperboy é um filme que lida com a selvageria da vida como se fosse o avesso de um documentário preocupado em registrar a cadeia alimentar dos maiores predadores que já pisaram na Terra. É bem verdade que, pela obsessão de não poupar o espectador em alguns detalhes desta carnificina, Daniels encerra seu trabalho sob o risco de vê-lo também devorado pelos corpos que filma; apesar disso, não se trata exatamente de um feitiço contra o feiticeiro, mas de um veneno que é seu próprio antídoto.

O desenvolvimento dos gêneros em Paperboy, que passa da comédia ao trillher e vem confundindo muita gente pelo proposital desequilíbrio narrativo que evoca, é o pretexto para um pano de fundo histórico (dos anos 60 e 70) que não se deixa roubar pela técnica: fotografia, direção de arte, figurino e trilha sonora, cada um dos elementos de formação do filme passa por uma depuração do excesso que culmina num quase total esvaziamento da cena. Vale repetir: aqui não sobram mais do que corpos se debatendo para sobreviver, para encontrar seu lugar no mundo e assim também provocarem a permanente justificativa de sua imagem. Curioso que, para um filme que não desgruda dos corpos de seus atores, Paperboy seja um filme de pouca pele. Sob nenhuma perspectiva Daniels pode filiar-se a toda uma escola do cinema contemporâneo que faz da pele o motivo da câmera, que recupera o tempo a partir dos poros; seus filmes, sobretudo este, se preocupam muito mais com o que atravessa a carne, com o que não se pode ver de um corpo, mas que — e aí reside toda sua violência — ele faz questão, não importa como, de colocar em cena.

Nesse sentido, é exemplar a sequência em que vemos um crocodilo sendo estripado pelo seu caçador. Vísceras, sangue e coração são arrancados e religados a todo imaginário de excreções que o filme cataloga. O que nos faz retornar às duas cenas inicialmente citadas: o sêmem de Cusack e a urina de Kidman, apesar de tudo, são a fonte de uma irresoluta ternura creditada por Daniels ao seu universo de cores e ginga. Há de ser destacado que, se ele pesa a mão na crueza de algumas cenas, é para ampliar a perspectiva de seu verdadeiro protagonista (Efron), uma criança grande que descobre o amor e a morte sem o devido tempo de compreendê-los ou recuperar-se deles. Uma vida que é pântano, daí o enfático cenário insistentemente retomado por The Paperboy e que lhe serve de desfecho; espaço que tão bem define as caóticas relações humanas habitualmente encenadas por Daniels, em paralelo ao seu cinema, carregado de sombras e atmosfera, mas também de perigos. E por não esquivar-se de tais comparações, eis um filme que se autodevora e que extrai desta autofagia uma impressão que, agrade ou não, dificilmente passa despercebida. Um filme que sobrevive.

Fernando Mendonça

Janeiro de 2013


ISSN 2238-5290