O Dia em Que Ele Chegar (2011, Hong Sang-soo)

Geometria das relações

A periferia das coisas é sempre mais interessante. Perambular, farejar como um animal. Inspecionar, anotar sem pretensões maiores. Falar e perguntar aqui onde nada se pergunta. Outra vez, reciclando. Esquecemo-nos, muitas vezes que a fala, a linguagem é um instrumento reciclado, ou algo ainda mais antigo. E Hong Sang-soo, com seus personagens à deriva, tenta camuflar o filme analítico.

Em O Dia em Que Ele Chegar, Sang-soo, como tem feito em muitos de seus últimos filmes, elabora uma obra analítica: somos obrigados a recorrer constantemente ao plano vendo de um rosto a outro, pois os gestos dos atores estão cheios de leituras na base – daquilo que já sabemos que é verdade ou que acreditamos que pode ser uma mentira. Os vestígios desses personagens, as mutações expressivas, aquilo que se esconde na periferia da imagem, no close propositadamente manual que vai escavar não somente os poros daquelas faces penduradas, mas o que se esconde na beirada daquela projeção.

Resulta curioso o desfecho do bar que os personagens frequentam e que se chama “Romance” (um gesto que traz a possibilidade fictícia de tudo o que ocorre lá), e que, nesse mesmo bar, existam outras possibilidades alternativas de um mesmo fim: beber, beber e comer. Há um dado momento especialmente delicado, a primeira vez que vão para lá, em que o protagonista vai para o terraço fumar. Acaba de conhecer a atendente, exatamente idêntica a mulher de sua vida (que à luz da mentira, ele a rechaça da forma mais alcoólica possível). Um travelling de aproximação acompanha seus pensamentos enquanto interpela diretamente o espectador e a pergunta: “O que devo fazer?”. Nesse momento olha diretamente para câmera – ou não, talvez ele só a buscasse –, no qual poderíamos considerar perfeitamente como o início de um enorme flashback.

Só existem três espaços distintos, seis personagens, em uma história de dias escassos e reduzida a menos de oitenta minutos, mas Hong Sang-soo consegue navegar para alguma coisa mais rápida do que a velocidade do cruzeiro do espectador – obrigado a observar cada gesto, cada (relevo de) mentira, e interpretá-los como uma espécie de diploma metódico do olhar. Ao final o protagonista passa por Seul reencontrando velhos conhecidos com os que não passam mais de alguns segundos, quando já não analisamos e somente vemos a vida que o protagonista já não tem, nos damos conta de uma sensação de melancolia – pois Sang-soo, cada vez mais com os anos, cai com muita frequência nesse estado.

A última cena de O Dia em Que Ele Chegar parece confirmar uma certa teoria conspiratória em relação às galerias espaços-temporais dentro do filme: o protagonista deambula por Seul outra vez, como no início. Começa a nevar. Liga para seu amigo e este diz que não poderá ficar com ele porque está muito ocupado pelos próximos dias. Não parece irritado. Então, concebe este final como uma alternativa a todo o filme que se passara diante de nossos olhos. Uma história que sucedeu somente em parte, ou não sucedeu em absoluto; cada qual é livre para escolher seu caminho, sua geometria das relações.

Ricardo Lessa Filho

Janeiro de 2013


ISSN 2238-5290