Itinerário de Jean Bricard                                                                                  (2008, Jean-Marie Straub & Danièle Huillet)

O último filme assinado pelo casal Straub & Huillet (póstumo de Danièle, que falecera em 2006), talvez seja o mais incisivo testamento que o Cinema tenha legado neste novo século. O corrente conflito entre o materialismo histórico e aquele que brota dos corpos no espaço, observado ciclicamente em toda a trajetória dos diretores, consuma neste pequeno diário de imagens o mais profundo esfacelamento do mundo físico, este que se dissolve entre os limites da memória e do esquecimento. Pois o Itinerário aqui registrado, de um homem encarnado pela voz (Jean Bricard) e as paisagens que um dia habitaram seu campo de visão e sobrevivência, nada mais é do que uma elegia da lembrança que ainda não se perdeu, apesar de todas as transformações que já possam ter atravessado a existência das coisas. Filme de travessia, exatamente, que dedica um primeiro terço de sua duração a um resgate definitivo dos Lumière, num eterno travelling sobre o Loire, poderia nos permitir a leitura de alguma polaridade com o díptico de Marguerite Duras e sua Aurelia Steiner (1979), outra composição de Paisagem e Voz, de Espaço e Memória, de Matéria e Nostalgia. A distinção entre tais referências se define primeiramente pelo conceito de ficção e a maneira como ele é manipulado em ambos: em Marguerite, toda a leitura é fruto de invenção, do nome de sua personagem aos sentimentos manifestos, não há realidade que preceda suas imagens do mundo; com os Straub, a oralidade biográfica do homem eleito abre caminho para uma concepção mais particular dos espaços vazios, ou da maneira como eles recriam/recontam toda uma história dos fatos — como aprendemos na pedagogia traçada por Daney a respeito dos diretores, não há tempo sem o preenchimento da palavra. Mais do que um derradeiro convite para se enxergar a luz, Straub e Huillet aqui concentram todo o estatuto de sua herança: no esvaziamento das margens (do leito poluído que filmam, das bordas de sua tela), esta ausência que dá corpo ao Presente, resistência e não conciliação, movimento que faz as pazes com a morte para permanecer vivo.

Fernando Mendonça

Janeiro de 2013


ISSN 2238-5290