Algumas   lembranças sobre Erich von Stroheim

(Artigo publicado na Cahiers du Cinéma, v. XII, n. 72, em Junho de 1957)

No último 12 de maio, depois de um longo período enfermo, Erich von Stroheim morreu em seu castelo de Maurepas. Ele já estava quase totalmente paralisado quando, em 17 de março, Jacques Flaud lhe entregou a cruz de cavaleiro da Legião da honra. Em nosso número 67, de janeiro deste ano, quando a Cinemateca Francesa iria exibir o conjunto de sua obra, dedicamos a ele uma parte importante de nossa publicação: Notas sobre o estilo de Stroheim, de Lotte H. Eisner, Querido Stroheim por Claude de Givray, e uma Biofilmografia completa feita por Charles Bitsch. Agora, Lotte H. Eisner completa esse conjunto evocando algumas lembranças pessoais sobre o grande cineasta, contribuição que convidamos nosso público a ler.

- Me nocautearam em Hollywood, disse ele com amargura, e ainda estou grogue.

Assim começou nosso primeiro encontro, alguns anos antes da última guerra, em 1936 ou 1937. Eu tinha ido vê-lo junto com Henri Langlois e alguns jornalistas, e me lembro que Stroheim nos fez beber um whisky atrás do outro. Ele parecia ter surgido de um de seus filmes, porque deliberadamente interpretava seu próprio papel. Estávamos muito comovidos de vê-lo em carne e osso e de acordo com sua reputação.

Gostaríamos de ter dinheiro suficiente para permitir que ele realizasse um novo filme. Era a época heroica da Cinemateca, quando Langlois guardava os filmes em seu banheiro, quando sonhávamos em reaver o negativo do filme mexicano de Eisenstein e convidá-lo a vir montar sua obra-prima profanada. Langlois também pensava em recuperar as passagens mutiladas das grandes obras de Stroheim… Mas o que poderia, naquela época, uma Cinemateca emergente?

Assim, nós todos bebíamos muito whisky enquanto o grande Stroheim falava. Segundo um costume seu, dirigia-se apenas a mim, a única mulher presente, mesmo que eu não fosse particularmente fotogênica. Dizia barbaridades sobre o amor e formulava paradoxos muitos atrevidos com a evidente intenção de me embaraçar. Sua maneira de falar era fascinante; eu senti intensamente o charme extraordinário deste homem estranho e magoado, cujos filmes tanto admirávamos. Partimos naquela tarde, Langlois e eu, surpreendidos e felizes de tê-lo encontrado. Tínhamos mesmo a impressão de ter atuado, durante algumas horas, num de seus filmes.

*

Depois da guerra, em nossa pequena sala na Avenida de Messine, Langlois pôde, enfim, mostrar a Stroheim seus filmes despedaçados. Eu estava sentada ao seu lado durante a projeção de Foolish Wives. Ele tinha um poder surpreendente para lembrar-se dos trechos que faltavam.

- Aqui, dizia-nos, eu avanço em direção ao espelho, olho-me e pressiono um botão sobre o meu queixo.

Falava sempre de seus papeis dizendo “Eu faria isso ou aquilo”, de tal maneira que os revivia com precisão.

Ficamos emocionados, Mary Meerson, Langlois e eu, quando Stroheim viu Greed pela primeira vez. As lágrimas corriam sobre suas bochechas e nós o escutamos murmurar:

- Não é possível, isso é um crime

Ele nos contava cada cena ausente. Quem dera eu tivesse um gravador para registrar suas falas! Escutávamo-lo ofegante, vendo renascer, pouco a pouco diante de nós, o filme original, e sonhando secretamente em recuperar os fragmentos perdidos, provavelmente abandonados em algum porão ou sótão, onde mofavam.

Mais tarde, mostramos The Wedding March. Dessa vez, eu estava sentada ao lado dele e de sua mulher, Denise Vernac, companheira admirável daqueles dias de decepção e dificuldades, anjo guardião, anjo paciente. O filme passava a dezesseis imagens por segundo. Depois de alguns minutos, Stroheim se levanta.

- Esse filme é insuportável, cansativo, horrível, disse ele.

Eu o olhava com temor, sua fala tinha o efeito de um sacrilégio para mim.

- A quantas imagens vocês estão projetando? Perguntou-me, bruscamente.

- A dezesseis imagens, certamente.

- Mas o filme foi rodado a vinte e quatro imagens por segundo! Havia uma música, discos!

Eu corri até a cabine. E eis que o ritmo original renascia: o filme se tornou sublime. Mas Stroheim ainda não estava contente; novamente, comentou as cenas faltantes:

- Aqui, depois de me levantar, eu fazia a barba: essa cena era essencial, porque ela me mostrava de maneira implacável, e era preciso ter visto isso para compreender como Mitzi me transformaria em seguida.

Depois, ainda lembrou-se de outras cenas que foram cortadas, explicando-nos e nos fazendo compreender o sentido. Durante a cena de amor entre as macieiras em flor, eu o escutei murmurar:

- Son of a bitch!

- Com certeza, eu disse, Sternberg deveria ter respeitado seu filme. É uma vergonha.

Erich virou para sua mulher e disse em inglês:

- Até mesmo ela sabe!

Mais tarde, na nossa sala de controle, ele tentou reaver o ritmo das cenas de amor, que Sternberg tinha cortado para introduzir intervalos indefensáveis de imagens de um pequeno pássaro e de um mocho; 1 mas Stroheim não conseguiu modificar completamente a montagem arbitrária, pois não tinha meios de ligar as cenas como desejava sem evitar os saltos.

Pacientemente, dia após dia, ele trabalhava na Cinemateca com sua mulher e a excelente montadora Renée Lichtig.2 Estava quase feliz. Os amigos americanos tinham conseguido recuperar os discos e, com a ajuda de Renée Lichtig, Stroheim pôde sonorizar o filme. Obstinado, trabalhava sem descanso.

Na tarde em que nós iríamos apresentar The Wedding March (ainda não sonorizado) na Cinemateca, por volta das 18 horas, isto é, no último minuto, Stroheim, que estava terminando a revisão dos planos, gritou subitamente:

- Não, não passaremos o filme, eu não quero… As pessoas vão rir, elas vão achá-lo ridículo.

Eu sabia que, lá embaixo, numa sala cheia, as pessoas esperavam o filme com paixão.

- Mas senhor Stroheim, nosso público entra em seus filmes como em uma catedral, ninguém ousará rir… Exceto naqueles momentos em que você desejou que rissem.

Nós o persuadimos a descer. Ele entrou na sala, atravessou a multidão cheia de respeito, e disse, emocionado:

- Vocês tinham razão.

Quando eu vi o filme, um dia antes de sua partida para o Festival de São Paulo, a cópia, sonorizada, estava resplandecente. Como por um milagre, o novo contratipo tinha, de uma cópia muito acinzentada e maçante, feito ressurgir todos os valores e todas as nuances desaparecidas, e subitamente retomadas.

*

Stroheim sonhava em reunir os dois filmes, The Wedding March e The Honeymoon, da mesma forma que Enfants du Paradis. Novo infortúnio: quando recebemos a cópia de The Honeymoon, ele percebeu que uma mão estranha havia sobrecarregado o filme por “condensar” a primeira parte; além disso, tinha deixado da segunda apenas o estritamente necessário para a compreensão. Como recuperar as passagens ausentes?

Na época de preparação da nossa exposição, Le Soixantenaire du Cinéma, eu retornei ao “castelo” de Maurepas. Acompanhada de Denise Vernac, folheei com emoção os scripts de Stroheim, nos quais, sobre a escrita intensa, ele havia feito riscos e correções, com toda a obstinação pelo trabalho que o caracterizava. Olhei um por um todos os seus desenhos, de Blind Husbands à The Wedding March, seus esboços de cenário e de trajes, em que já apareciam alguns retratos e caracteres. Para alguns closes, ele tinha desenhado o fac-símile referente ao estilo do pequeno bistrô de The Wedding March, imitando a escritura grosseira de um estalajadeiro; para outro close, havia redigido um endereço sobre uma carta à maneira complicada de um funcionário público. Enfim, eu me inclinei com respeito sobre um exemplar do romance “Mac Teague”, rabiscado por Stroheim quando ele preparava Greed.

*

Recentemente, no dia que ele recebeu sua Legião de honra, Langlois e eu havíamos ido vê-lo. Ele segurou nossas mãos por um longo tempo. E me disse:

- Eu raramente gosto dos artigos que escrevem sobre mim, mas eu adoro o seu, cheio de compreensão. Agradeço-lhe por isso.

E me fez um pequeno cumprimento militar:

- Eu vos saúdo, senhora.

Respondi que era uma grande honra para mim ser saudada por Erich von Stroheim.

Lentamente, ele virou em minha direção sua pobre cabeça, que mexia com dificuldade.

- E eu estou contente, disse ele, que aquele não tenha sido um artigo post mortem.

Estranha fascinação: ele estava em um grande leito mortuário, o rosto muito branco, vestido com um pijama de seda preta, estendido sob uma imensa cobertura de veludos vermelhos, e o hall, com suas armaduras, seus sabres e seus troféus, parecia estranhamente com o encontro de caça de The Honeymoon.

Adeus Erich Von Stroheim, nosso amigo, gênio do cinema. Este também não é um artigo post mortem, somente algumas lembranças dispersas que foram reunidas para lhe homenagear, nada mais.

1 Alguns defendem que Sternberg só “transformou” The Honeymoon. Portanto, seria outra pessoa a ter modificado The Wedding March.

2 Escrevi sobre ela um artigo nos CAHIERS DU CINÉMA, nº37.

Lotte H. Eisner

Tradução: Edson Costa

Janeiro de 2013


ISSN 2238-5290