A Viúva Alegre (1925,                 Erich von Stroheim)

Direito de amar e de ser maldito

I – O cinema de Stroheim é, em seu dilúvio humano mais atormentador, fragmentos imensos de opostos, de figuras duplas, da simetria mais assustadora. Em A Viúva Alegre encontraremos a imagem-desespero daquilo que nunca será obtido: o amor tranquilo. As mazelas sociais, os apegos mais supérfluos, o desejo bloqueado pela imposição da sociedade. Não há figuras heroicas em Stroheim (afinal, ele mesmo foi o seu maior anti-herói), mas o homem debilitado, atormentado pelas obrigações titulares, pelas quimeras da vida – o sonho anulado de um amor ou a morte que fareja a vida.

II – As silhuetas ancestrais dos personagens, esse crivo arqueológico que o cineasta austríaco imprime: há naqueles corpos flutuantes, um imenso desejo de se fazer notável ao outro. Tanto o Príncipe, como a dançarina e até mesmo o antagonista precisam do preenchimento do outro – do corpo, do ar, do desejo desse outro. Não há captação possível em que a vida se faz andante sem essa presença, sem esse marco.

III – No embate diante dos monstros da realeza, o Príncipe falha, tropeça, deixa de escolher o amor; vive, então, a amargura do vazio: na distância daquele momento, no fardo da escolha por covardia, ele um tempo depois descobre que a dançarina por quem é apaixonado se casará com o antagonista (que também é seu primo). O dilúvio da realidade finalmente vai arrastá-lo: com os olhos marejados e incrédulos (e Stroheim fixa a câmera, a faz respirar suavemente, e ali descobrimos toda a colisão sentimental do protagonista), o Príncipe desafia o Primo para um duelo de armas (a morte em Stroheim é o mais soturno dos signos, das criptografias desse cinema maldito). Ele não poderá ter uma derrota maior do que aquela que já descobrira (o casamento da mulher por quem verte sentimento com o outro): a possibilidade do morrer não o atormenta, mas o alivia de sua expiação, de sua covardia. O duelo nada mais será do que a sua dupla oportunidade de ser livre (na vera, de se livrar de sua maldição): ou perde e de fato morre, ou vence (o que não o livrará do signo da morte, mas não em si, e sim em seu desafiante) e ganha uma outra chance com a dançarina – que o ama, mas que, agora milionária após ter sido abandonada pelo Príncipe às vésperas do casório, se envolve com o homem (idoso) mais rico da região e quando morre, o velho deixa tudo para ela – e logo após, por uma espécie de vingança, aceita as investidas do Primo do Príncipe.

IV – A cena da batalha redimensiona a redenção daquele homem: diante da Morte, o príncipe sequer levanta sua arma, ao tempo em que seu rival não lhe tem piedade: saca sua pistola e atira em seu coração. O Príncipe cai, e assim como acontece em O Redemoinho da Vida (1923), é necessário perguntar: ele realmente morreu? A fusão se apresenta: já, naquele momento post-mortem (?), o espectador se vê condicionado à altura da negação de tudo aquilo que o filme apresentará em seus minutos finais. Não há espaço para duas silhuetas, pois elas não podem ocupar um mesmo lugar no espaço – ou no cinema de Stroheim. Num chocalhar narrativo, Stroheim mata o que estava vivo (o Primo) e ressuscita o que estava morto (o Príncipe): nada mais maldito e subversivo do que modificar as leis da natureza. Stroheim, definitivamente, era um Maldito.

V – Um filme é, como um livro, o colocar em cena das recordações. Mas o cinema, diferente da literatura, mostra os fragmentos da recordação no lugar de nomeá-las. Não as alude. As expõe. Uma recordação vazia de segredos se parece com uma casa saturada de coisas que gritam, com uma localização intercambiável. Ao contrário, um fotograma que perdura nos persegue, impregna o anterior e se apodera de cada fotograma sucessivo, como se tivesse sido derramado, porque suas coisas insistem em permanecerem caladas sem abandonar seus postos. E assim é a marca de Stroheim, que perdura, que impregna e que insiste (e para sempre insistirá) em permanecer como memória inextinguível dessa história tão cheia de retalhos como é a história da sua vida e a história de seu cinema.

Ricardo Lessa Filho

Janeiro de 2013


ISSN 2238-5290