O Grande Gabbo (1929, Erich von Stroheim & James Cruze)

Existe uma crueza quase inocente em O Grande Gabbo. Algo titubeante, indeciso, que fica evidente nas idas e vindas em que o filme constantemente se perde. Ora um musical, ora uma história sombria. O despropositado deslumbre visual e sonoro teima constantemente em interromper a narrativa, quebrando o ritmo, a tensão, a atmosfera.

Não causa espanto que o filme tenha dois diretores. Há olhares e aproximações inconstantes, como se não somente se sucedessem duas formas de realizar uma cena, mas também duas maneiras de pensar o cinema. De um lado, James Cruze está embasbacado pelo som. Ele exagera no tempo dos números musicais, reduz a decupagem a uma apresentação das ações e compõe a narrativa da forma mais rasa possível, complexificando-a apenas através dos diálogos. Erich Von Stroheim, por sua vez, propõe cenas densas e estranhas. Ele constrói um personagem atormentado por sua intolerância, que apenas consegue vencer a dificuldade de convivência em sociedade pois manipula um títere. Ao contrário de seu dono, o boneco é doce, simpático e irônico.

Não há muitas nuances na narrativa. A história começa com a separação entre Mary e Gabbo. A moça era na época uma espécie de ajudante do ventríloquo, além de sua namorada. No dia em que o relacionamento completaria dois anos, Gabbo fica irritado com a temperatura do café que ela lhe serve. Nem quente, nem frio, exigia o homem. E Mary reage como quem já não aguenta mais tanta reclamação. Gabbo, indiferente, diz que para ele tanto faria se ela ficasse, ou se fosse embora. Mary decide então partir. Ela se despede de Otto, o boneco que mesmo em meio à discussão segue calmo e boa-praça, embora esteja sendo manipulado por um Gabbo irritadíssimo.

Anos depois, eles se reencontram em um show da Broadway. Gabbo e Otto são o grande destaque do espetáculo, mas Mary também tem alguns números, em que canta junto a Frank, seu atual companheiro. A história do filme desenrola-se entre apresentações do espetáculo e tentativas de sedução de Gabbo direcionadas a Mary. Por fim, ela revela que é casada com Frank e nega o convite a um jantar romântico. A rejeição de Mary faz com que Gabbo perca a razão. Ele invade o palco em meio ao Grand Finale e acaba demitido.

Apesar da superficialidade do argumento, há alguns pontos interessantes no filme. Acho intrigante, por exemplo, a forma como são construídas as apresentações do ventríloquo e de sua marionete, Otto. O que faz com que Gabbo seja tão famoso (e possa ser chamado de The Great Gabbo, ou seja, o Grande Gabbo) é o fato de que seu boneco fala sem que ele, o manipulador, mexa a boca. A questão, portanto, gira em torno da sincronização labial, do fato de quando Otto está falando a fonte de onde sabemos que deveria sair sua voz está ocupada seja bebendo água, seja fumando, seja fazendo os dois ao mesmo tempo, ou até mesmo engolindo um lenço ou colocando um ovo na boca. Quando está no palco, Gabbo faz de tudo para tornar evidente a sua capacidade de emitir voz sem mexer os lábios.

É claro que esse é um truque do cinema, que a voz do boneco é sincronizada na pós-produção ou dublada por um outro ator que esteja fora de quadro. De toda forma, o estranhamento gerado pela aposta no artifício beira a metalinguagem. O filme foi realizado em 1928, quando o som ainda estava recém-surgindo e a sincronização labial era justo o que atraía multidões para o cinema. Não é a toa que os primeiros filmes do cinema falado ficaram conhecidos como talkies. A novidade eram os diálogos, os rostos falantes, a linguagem coloquial. Mas O Grande Gabbo beira o caminho oposto, sincronizando a voz com um corpo de madeira, um falso ator em miniatura, insólito e excêntrico.

Um outro ponto curioso do filme é que a história de Gabbo parece um pastiche da trajetória de Stroheim. A “subida” na vida, a escolha pelos uniformes militares, a relação inventada com a nobreza. Tudo está ali, compondo esse personagem à beira da loucura, que apesar de sua genialidade acaba punido por sua intransigência.

Os conflitos de Stroheim com os produtores de cinema e com os donos de estúdio que acabam interrompendo seu caminho como realizador e fazendo com que ele nunca mais dirija um filme poderiam ser sintetizados pela imagem final de O Grande Gabbo. O ventríloquo segura sua mala e observa ao longe seu nome ser retirado dos holofotes. Gabbo, assim como Stroheim, somente é amado quando se domestifica, quando contém seus impulsos e se deixa manipular, tal qual Otto, seu alter ego.

Na cena da despedida em que Mary revela seu casamento e assume que quer estar com Frank, ela não parte sem antes fazer uma declaração. I love you, I always have and I always will, ela diz, mas direciona as palavras não a Gabbo, e sim a Otto. Ora, o amor de Mary é o mesmo que o de Hollywood por Stroheim. Amar Otto sem amar Gabbo é amar a obra, sem amar o autor.

Diego Hoefel

Janeiro de 2013


ISSN 2238-5290