Entre Mim e Eles                         (2013, Marcelo Ikeda)

Choram com grande saudade
Estes meus olhos cativos.
[Cantigas de Santa Maria, séc. XIII]

Estes olhos sobre a câmera. Amarrados a um realismo distinto. Olhos cativos, sobreviventes e dependentes daquilo que veem. Não procuram a cura, não resistem pela falta de opção. É sua escolha atar-se ao foco das lentes. Estes olhos sobre a câmera. São os olhos da mesma epígrafe que inspirou a Saudade de Rousseau, curta-metragem de 2012, atualizador na condição do olhar nostálgico. Saudade que habita cada movimento do filme-processo de Marcelo Ikeda e que, desde suas palavras-prólogo, esclarece uma terna postura de revisitação, de resgate da memória que ficou. Estes olhos sobre a câmera. Olhos de uma equipe inteira, durante a realização de Os Monstros (2011), olhos de um homem só, durante a contemplação do que se realizou. Entre Mim e Eles, filme que está para o trabalho dos irmãos Pretti, Guto Parente e Pedro Diógenes, assim como esteve o Onde Jaz o Teu Sorriso?, do Pedro Costa, em sua relação com Sicília!, de Straub & Huillet, é uma declaração de Ikeda que não apenas prossegue um projeto a ser observado desde seus filmes anteriores, mas também avança na concepção de um cinema muito particular da produção atual, intimista, ‘caseira’ como prefere o diretor, adequada para olhos que não se cansam nem mesmo diante de uma exploração do cansaço enquanto tema. Estes olhos sobre a câmera.

Como o próprio Ikeda declarou em sua carta de intenções sobre Entre Mim e Eles, não estamos diante de um simples making-of, de um documento institucional a respeito de bastidores de filmagens. Seu documentário está muito mais para uma experiência afetiva nascida da relação com estes bastidores, o registro de um ponto de vista que não desvenda ou desnuda qualquer dos elementos técnicos do filme original, até porque Os Monstros é um exercício que não pede esta elaboração, já que ela se encontra disponível em sua própria superfície, assim como em toda a discussão trazida pelos inventores para além da questão apresentada nas imagens. Entre Mim e Eles é a repetição levada às últimas consequências, a retomada de planos sob uma perspectiva outra, como se desta conexão surgisse um mundo que somente o filme de 2011 não fosse capaz de completar. É expressivo o exemplo da cena noturna na praia, quando Ikeda decide mover o eixo de sua câmera-olho para tirar de quadro os jovens que conversam e decidem romper a noite numa festa de algum conhecido; enquanto gritam “festa, festa, festa!”, e no filme deles víamos sua euforia exacerbada e quase fora de controle, com Ikeda voltamos os olhos na direção do mar, harmoniosamente, enxergando as ondas que se aproximam e recuam, aproximam e recuam, aproximam e trazem esta outra dimensão do que se viveu.

Entre Mim e Eles, filme-extracampo, alimenta-se justamente de uma variação delicadíssima, espelhamento do que fora apenas intuído no tempo passado, e que agora se recupera, trazendo de volta um tempo perdido. Ao optar pelas águas como ponto de fuga, Ikeda faz do mar de Os Monstros o seu mar, ou, pelo menos, estabelece um vínculo com o mar que motivará seu novo epílogo (talvez o desfecho melhor resolvido de sua carreira, até aqui). Estas águas que também se repetem, mas que nunca são as mesmas, refletem as imagens de um cinema que resiste ao evidente, que volta ao ponto de crise, ao movimento original, sem negar as limitações que lhe são impostas.

Desde o texto lido na abertura, pelo próprio Ikeda, fica bem demarcada a atmosfera a se buscar aqui. Não há intenção de se mascarar a oralidade, seja pela qualidade ‘caseira’ da gravação de áudio, seja pelo ritmo e entonação artificiais provocados pela voz do diretor. Ele não finge ou força uma naturalidade ao texto, e daí uma diferença a ser considerada na relação incontornável de seu filme para com Os Monstros. Por mais que não se deseje uma reflexão comparativa, é preciso assumir que, ao introjetar algumas das concepções que observa, Entre Mim e Eles amplia os efeitos e problemas colocados por seu antecessor. Não por acaso, as perguntas que nos ficaram daquele filme, podem ser refeitas aqui: “sobra o isolamento da imagem e alguns de nós que, do lado de cá da tela, insistimos em ouvir o que já foi silenciado. O que importa saber, afinal, é quem somos ‘nós’? Estes que permanecem? Ou, em que medida importamos para que a permanência se efetue?” Ambos os filmes são formados por inquietações da permanência (da narrativa, do público, do movimento), mas Ikeda afunda esta percepção por ter como matéria-prima a continuidade daquilo que se apropria, sem importar-se com a fragilidade do que traz em mãos — é curioso o filme portar como símbolo primeiro uma dobradura de papel, impulso visual da declaração lida no prólogo, significativamente queimada tão logo se esgotem as cenas de visitação sobre Os Monstros.

Assumido seu potencial de autocombustão, Entre Mim e Eles encerra a noção de distância que explicita desde o título com imagens de notável deslocamento ao que formou seu núcleo. Abandona-se o P&B, cresce o ritmo dos cortes, e num breve registro do cinema-diário de Ikeda vemos o próprio ganhar corpo no filme para ir lançar uma carta ao mar, dentro de uma garrafa. Gesto que alarga a saudade introdutória e a premissa na busca de uma permanência pela alteridade que para sempre será desconhecida. Consciência impressa de que os olhos sobre a câmera, aqueles dos realizadores de Os Monstros, os próprios de Ikeda e os nossos, que insistimos em ouvir o silêncio, são olhos que precisam resgatar o horizonte, esta distância que não se transpõe ou consuma sem que lhe surja um novo abismo ou espaço a conquistar. E, pela deriva com que se encerra este olhar voltado contra o próprio cinema, resta a impressão de que realmente é preciso voltar um pouco atrás, fazer com que os olhos se lembrem de um estado perceptivo anterior à consciência de câmera. É preciso tão somente olhar a vida.

Fernando Mendonça

Março de 2013


ISSN 2238-5290