Dentro da Casa                              (2012, François Ozon)

Sob(re) os muros da narração

“Por mais familiar que seja seu nome, o narrador não está de fato presente entre nós, em sua atualidade viva. Ele é algo de distante, e que se distancia ainda mais. Descrever um Leskov como narrador não significa trazê-lo mais perto de nós, e sim, pelo contrário, aumentar a distância que nos separa dele. Vistos de uma’ certa distância, os traços grandes e simples que caracterizam o narrador se destacam nele. Ou melhor, esses traços aparecem, como um rosto humano ou um corpo de animal aparecem num rochedo, para um observador localizado numa distância apropriada e num ângulo favorável. Uma experiência quase cotidiana nos impõe a exigência dessa distância e desse ângulo de observação. É a experiência de que a arte de narrar está em vias de extinção. São cada vez mais raras as pessoas que sabem narrar devidamente. Quando se pede num grupo que alguém narre alguma coisa, o embaraço se generaliza. É como se estivéssemos privados de uma faculdade que nos parecia segura e inalienável: a faculdade de intercambiar experiências.”

Walter Benjamin

Tomar distância é a estratégia que impede a dissolução e preserva a boca para o relato. Quem relata se coloca em guarda e ordena à corda bamba do sentido a desordem enlouquecedora da experiência. Em Mil e Uma Noites, a princesa Scherezade adiou sua morte durante a longa noite em que contou histórias a um Sutão que havia planejado assassiná-la. Para sobreviver a dupla decapitação (da loucura e da morte em si), ela teve de narrar. A língua é uma encantadora de serpentes insones. E também de olhos alheios. E dessa fascinação sobre o narrar que faz com que o novo filme de François Ozon se adentre num novo território da ilusão (como Sherezade), é dizer que o irrefreável interesse que nos provoca a história e seus protagonistas e saber como elas vão se desenrolar: será uma comédia? Uma tragédia? Uma contra-fábula de terror? Igual àquela que o Sutão se vê incapaz de cumprir a diária promessa de decapitar a sua jovem desposada transportado pelas suas exóticas narrações?

Controlando as asas da fantasia, Dentro da Casa narra o professor de literatura Germain (Fabrice Luchini) que se vê arrastado pelo mælstrøm de saber o que acontecerá em seguida, como discorrerá a próxima aventura do jovem pupilo Claude García (Ernst Umhauer) na casa de uma família de inconfundível odor da classe-média. Quem sabe no filme de Ozon esse poder de fascinação se acrescenta ao ser o próprio professor um romancista frustrado que verá em Claude uma oportunidade de rebelar-se contra seu destino, cujo parto não se sabe bem se é um Pigmalião ou um Doppelgänger e é que, abrindo um novo caminho de todos os que transitam dentro da casa, aqui cada personagem tem motivações distintas. A síntese: Claude narrará por cartas a Germain o dia a dia da família de seu amigo Rapha (um ser com uma “ordinariedade incomum”).

Essa pluralidade de motivos para justificar os atos dos protagonistas cobre uma ampla ventilação narrativa; desde as anteriormente mencionadas para o professor e Claude, em que a criação literária parece em muitos casos mais um meio do que um fim. Para Claude (e num certo nível também para o seu professor), essa prosa é um cano de escape que o ajuda a desertar-se de uma realidade cotidiana pouco agradável, uma estrada de um solitário sentido que o distancia da “sujeira” diária e o aproxima da normalidade burguesa representada pela família de seu amigo Rapha (Bastien Ughetto). O seu interesse erótico pela mãe de seu amigo é mais um fruto de sua obsessão proletarizada do que um impulso genuinamente sexual. Essa diferença classicista permite que Ozon ingresse no terreno da sátira social para burlar abertamente as obsessões pequeno-burguesas tão frequentes na história do cinema francês: sua desmedida aparição acaba por aparentar uma frívola e superficial aproximação à arte, à busca de programações sexuais como saída às frustrações da vida.

Todo esse jogo cruel, que alguém poderia considerar excessivamente cínico, acaba por ser temperado por um final em que numa nova volta em espiral revertida possibilita com que o espectador seja testemunha daquelas histórias narradas em outros âmbitos, que transforma toda (boa) narração numa chance de elidir os próprios fantasmas interiores – o filme, numa perspectiva fenomenológica, também poderia ser lido à altura da onipresença de Claude, como uma peça fantasmagórica da comparência de (no) “palco”: ele, tal como um habilidoso fantasma, move-se por entre os cômodos e móveis da casa de forma imperceptível.

Dentro da Casa é um Doppelgänger sobre o ato de narrar (literária e cinematograficamente) e tal como Sherazade, Claude e o seu professor usam da língua e da imaginação (e da perversão sempre acoplada à qualquer narração de bom gosto) para compor tudo o que foi mostrado, porque o fim da história é o verdadeiro começo para a perpetuação do ato da narração, é a partir daí que tudo se tornará memória e a orfandade narrativa será elidida de uma vez por todas.

Ricardo Lessa Filho

Abril de 2013


ISSN 2238-5290