O Último Desafio                       (2013, Jee-woon Kim)

Dreyer, Malick, Skolimovski, tantos autores já se beneficiaram de longos hiatos, voluntários ou não, e fizeram dos anos de pausa um tempo definidor para sua retomada de carreira, seu ressurgimento… Mas, “que raio de abertura é esta para um texto a respeito do novo filme com Schwarzenegger?”, você pode se perguntar. Passada uma década sem nenhum trabalho de Arnie como protagonista, a sensação de vê-lo estampando novamente o centro de um pôster ou trailer é semelhante, coisa de abrir um meio-sorriso (de satisfação ou incredulidade, não importa) em qualquer pessoa, fã ou não, que tenha acompanhado algum movimento comercial do cinema no final do século passado. Mas, “por que agrupar o Arnie a nomes de autores, pessoas que demarcam um projeto pessoal de estética?”, você pode continuar intrigado. E eu respondo: porque Arnie, hoje, é um autor. Há em suas rugas, na fragilidade que os músculos já não escondem, aquilo que De Baecque chama de excesso de corpo, excesso de real. Corpo que um dia determinou os parâmetros de produção, as cifras de um negócio, mas que hoje tem o poder de orientar uma mise en scène, por ser documento de um tempo e existir, autonomamente, como imagem de si e de todo um referencial agora revirado pelo jogo de ironias que dá forma a um filme como O Último Desafio.

Filme irmão da franquia Os Mercenários (que já contava com aparições relâmpago de Arnie), este primeiro trabalho do sul-coreano Jee-woon Kim em terras americanas, sofre do mesmo sintoma que acometeu a segunda parte daqueles filmes do Stallone; pois assim como Os Mercenários 2 é um filme ‘do’ Stallone (ainda que assinado na direção por outra pessoa), O Último Desafio é um filme ‘do’ Arnie. E isso basta. Na verdade, poucas coisas no atual cinema americano são mais significativas do que a retomada auto reflexiva de alguns ícones da ação. A maioria dos filmes encabeçados por essa turma tem se destacado por saber utilizar o arsenal de memórias de seus corpos a favor de uma nova problematização da imagem-ação, e não só esta, mas de toda uma dimensão geracional para o cinema das massas, reposicionando a necessidade dos corpos jovens e belos para favorecer exemplares de homens que já não sabem o que é a perfeição, que estão longe dos heróis de sonhos — e nisso provocam todo um nicho do sistema blockbuster — e ganham força justamente pela exposição de sua fragilidade presente, corroída pelo tempo. Não por acaso, uma das cenas mais emblemáticas de 2012, se dá com a morte do jovem personagem de Liam Hemsworth, na citada sequência de Os Mercenários. Assassinado por um Van Damme impiedoso, este rapaz concentrou a morte de todo um ideal da juventude, pelo menos dentro do imaginário específico do gênero. A partir desta cena, ficou muito claro que o novo filão de títulos com velhos atores não evoca somente o riso autoconsciente, mas também dá margem às lágrimas de uma melancolia que não precisa ser derramada para se fazer sentir. São todos filmes de uma tristeza profunda, reflexos de finitude e corrupção física.

O Último Desafio cresce, não quando Arnie reassume sua violência particular, mas quando ele revela um corpo igualmente violado (pelas dores da velhice, pela necessidade de óculos, pela saudade de um tempo que não volta mais); toda sua ironia, um disfarce da verdadeira tristeza, é ampliada pela enorme quantidade de entrelinhas que ressoam a cada diálogo ou situação, daí ser um filme de ecos e sombras, de escuridões bem exploradas em cenas como a do ataque noturno, em que os vilões explodem todos os focos de luz para cegar os jovens policiais e assim os expor à morte. Nestes filmes em que a juventude já não é possível, vemos um outro avesso de Hollywood sendo também exposto, colocado aos holofotes de um sistema envelhecido e caduco. Eis a compreensão de um cinema que precisou do hiato (pois desde o eclipse do VHS não se fazia notar) para ressurgir com um sentido que na verdade nunca fora tão amadurecido. A retomada de nomes e corpos como os de Arnie e Stallone redimensiona um recorte do cinema que demorou muito a encontrar sentido, mas hoje começa a se justificar como algo histórico e devidamente atual. Corpos que assumem o interesse da autoria por se fazerem sujeito e objeto da encenação, causa e efeito da imagem. Não é pouca coisa e, assim esperamos, é só o começo do verdadeiro desafio.

Fernando Mendonça

Abril de 2013


ISSN 2238-5290