Entre certezas

Nicole Kidman, Tom Hanks, Sandra Bullock, Mel Gibson, Julia Roberts, Tom Cruise, tantos rostos, tantos nomes estampados nos cartazes de estréia ao redor. Tão estranhos. Mas ele sabia que para os outros não. O velho Alfredo conhecia a magia que esses rostos e nomes podem exercer no imaginário de um espectador de cinema, naquele que se torna amante do movimento das imagens na tela e que se deixa aprisionar em emoções e sentimentos que na verdade libertam. E como ele sabia.

Greta Garbo, Humprey Bogart, Lilian Gish, Cary Grant, Ingrid Bergman, Rudolph Valentino, tantos outros, tantos quantos um dia lhe acompanharam, prosseguindo após findas as sessões no movimento da memória, que revifica e enaltece dias outrora corridos conferindo-lhes o inevitável da superioridade. Até hoje. Ou ao menos, até aquele dia.

Ele estava sentado, sozinho, deslizando a língua contra o céu da boca para aproveitar a sensação deixada pela manteiga derretida que o invadira através das três primeiras pipocas mastigadas. “Nenhum outro lugar faz pipocas assim”, uma das certezas inabaláveis que ele aprendeu durante a vida. Uma das poucas, infelizmente. Desde cedo entendera que não se vive para encontrar o que há de certo ou de real nas coisas que acontecem. Não se vive para crer.

Uma porta se abriu. O velho Alfredo virou um pouco o pescoço para admirar a multidão que saía ruidosa com o término de algum filme. Poucos risos. Alegria engolida. As expressões diziam que não tinha sido uma comédia, que não fora uma simples aventura, sinalizavam que a sessão despedida oferecia algo a se pensar. “É, ainda se fazem filmes assim”, mas essa não era uma certeza, pois poderia estar interpretando-os errado. Ele era consciente. Sabia que a máxima “não se fazem mais filmes como antigamente” era falsa, usada apenas por espíritos envelhecidos, saudosos por um passado que é sempre bom só porque não volta mais. Não. Ele só não ia mais ao cinema porque os ouvidos não suportavam o som cada dia mais alto, mais aprimorado, e também porque não tinha companhia. Desde que sua esposa morrera, há quatro anos, nunca mais pisara numa sala de cinema, pois foi em uma que se beijaram pela primeira vez, e em muitas outras que mantiveram o calor dos apaixonados durante os quarenta e sete anos de matrimônio. A dor fora da sala já era difícil de suportar. Preferia não correr o risco.

Vinha sempre àquele lugar. O shopping mais próximo de seu apartamento tinha nesse multiplex um dos pontos mais movimentados. Tantos corpos de um lado para o outro entre as sessões entretinham-no sempre enquanto degustava o gorduroso vício das pipocas amanteigadas, o que não era diferente naquele instante. O movimento diminuiu. A multidão se foi. E quando ele se preparava para voltar às pipocas caiu com os olhos naquele banner amigo que lhe cumprimentava todas as quinzenas. Havia alguns espalhados pelo lugar. Imagens de clássicos. Sentava-se sempre com seu favorito, o rosto cinematográfico por excelência: Charles Chaplin. Talvez o mais popular de todos, o único inesquecível, amigo de longa data e, sem dúvida, o mais admirado pelo velho Alfredo.

O banner, exposto num tripé metálico da altura de um homem, trazia estampado apenas o rosto com aquele olhar. Não um filme específico, mas o homem-personagem do século, naquele equilíbrio entre o riso e a lágrima que não permite a certeza de alegria ou tristeza por alcançar tão somente a emoção bruta de uma alma que soube retratar o lado humano da vida. “Ele está rindo ou chorando?”, perguntou a primeira vez que o viu. Não souberam responder. Lembrava-se apenas de ela tê-lo comparado a uma encarnação da Gioconda com um enigma no olhar envolvido pela ternura da inocência, elemento que justificava a amplitude de possibilidades. Nostalgia. Paz. Deixara de se questionar sobre seu olhar como um amigo se rende ao outro pela confiança que a intimidade traz. E voltou às pipocas.

A camisa de manga longa bem ensacada, os vincos delineados na calça marrom, o colete de mesma cor para protegê-lo do ar condicionado, tudo no velho Alfredo fazia dele um indivíduo encantador. Em seu simpático silêncio passou a conhecer todos que ali trabalhavam. Os atendentes da lanchonete, os lanterninhas, o pessoal da limpeza, não havia um que não se dispusesse em lhe conceder um sorriso quando por ali aparecia. Isso lhe afastava a solidão.

Sentaram-se ao lado. Um casal de jovens com menos de duas décadas vividas cada um, calados. Olhou rápido para eles e sentiu a beleza da juventude em seus corpos, mesmo em seus rostos sérios. Vinham da direção que a multidão saiu, então deviam ter assistido ao mesmo filme, porém tendo permanecido até o final dos créditos. Achou graça. Também fazia isso quando iam ao cinema. Para ele um filme só terminava quando a última letrinha desaparecia, levando consigo a última triste nota que toda trilha sonora tem. Não pôde deixar de ouvi-los.

– Eu não vou pedir desculpas.

– E eu não vou acreditar no que você está dizendo. Não pode ser.

– Mas é.

– Por quê?

– Fê, por favor, você sabe que não dá pra responder isso.

– Eu sei? Ah, é? Mas você não parece entender que não dá pra eu aceitar isso.

– Quem não está querendo entender é você.

– Mas o quê?

O silêncio dela pareceu ser bem compreendido por ele, e o velho Alfredo se deu conta de que estava presenciando uma dramática discussão de namorados, sempre necessária para a manutenção de uma relação onde o amor esteja em jogo. Pipocas avante, permaneceu com os olhos baixos para não ser mais indiscreto do que já estava ousando e continuou como espectador exclusivo do que se desenrolava ao lado.

– Você não viu a atitude que ele tomou no filme? Não existia outra alternativa pra ele, sabe, parece que ele nem podia decidir outra coisa que não aquilo. Era só. Voltar atrás era o mesmo que deixar de viver.

– Mas o que isso tem a ver com a gente? Nós somos felizes assim.

– Tem a ver comigo. Ele também a amava, mesmo quando decidiu fazer o que fez.

– Era só um filme.

– Pra mim foi mais.

– E só por causa disso agora você quer deixar…

– Eu já disse que não quero pedir perdão. Não estou fazendo o errado, pelo contrário.

Vindo dele, o silêncio falou mais alto. E durou uns trinta segundos. Ao fim destes, o velho Alfredo não resistiu e olhou para o lado a tempo de ver ela beijar-lhe a face com extrema delicadeza, levantar-se e sair sem olhar pra trás. Assistiu à cena atônito, impressionado com o fato de adolescentes se portarem e conversarem com uma maturidade sofrida, fácil de compreender. Até que terminou. Não só mais uma briguinha como ele imaginara a princípio, mas um diálogo que encerrava não sabia quanto tempo de afeto compartilhado, abandonando o jovem prostrado ali.

Num gesto brusco o jovem ergueu a cabeça na direção do velho Alfredo, que se deixou flagrar com uma surpresa constrangida, sem desviar o olhar. Encararam-se. E naquele momento todas as diferenças sumiram, dando lugar a uma troca de emoções que entendia, e consolava. Ele não esperava que o jovem o notasse, assim como não se espera que os atores de um filme encarem o público diretamente e se percebam notados em suas fraquezas, mas talvez essa quebra das expectativas foi o que possibilitou a desmedida identificação que o velho sentiu para com aquele desconhecido a seu lado. Em seus olhos a vermelhidão denotava que ali existia amor, e o segurar das lágrimas, tão peculiar à alma masculina, era idêntico a força que um dia o velho Alfredo fez, há quatro anos atrás.

Não foi preciso nenhuma palavra. Antes de sair o jovem abriu bem os olhos como para acordar do estado em que mergulhara e respondeu ao simpático ancião com um olhar grato, talvez consciente de que algumas coisas simplesmente têm que ser como são. Depois que se foi, o velho Alfredo permaneceu só, ignorando o resto das pipocas, curioso por saber que filme provocara tudo aquilo, qual seria aquele a que o jovem nunca mais poderia assistir sem experimentar o sabor amargo do passado. Voltou a cabeça para o outro lado e sem esperar, foi atingido por uma das raras certezas inabaláveis da vida: Chaplin chorava.

Fernando Mendonça

Julho de 2010


ISSN 2238-5290