La Stazione                      (1952, Valerio Zurlini)

São muitas as ruínas da Segunda Guerra Mundial. Por todo o canto na Europa há escombros, destroços, resquícios impressos no tecido urbano das cidades atingidas por anos de bombardeios. Mas há também ruínas imateriais, aniquilamentos trazidos pela perda de esperança de quem vivenciou direta ou indiretamente os combates, as invasões, os genocídios. O fim da guerra torna urgente a busca por restaurar um sistema de crenças e abre espaço para uma série de discussões sobre a existência humana, com suas errâncias, com suas oscilações.

Uma ruína é algo que permanece erguido, mesmo que parcialmente devastado. Talvez seja essa a matéria-prima do cinema de Zurlini. Essa mistura imprecisa entre as ruínas materiais e imateriais do pós-guerra, que se evidencia nos silêncios, nos abraços, por entre olhares.

La Stazione (1952) de certa forma já revela o interesse por esse cinema de escombros humanos. O curta-metragem foi realizado no terminal ferroviário de Roma durante um mês, sem qualquer planejamento ou roteiro prévio. A busca, segundo Zurlini, era por documentar as pessoas que circulavam na estação durante as primeiras ou as últimas horas do dia. Gente que às vezes dormia nos bancos da terceira classe, ou que se amontoava para entrar nos trens que iam para o norte da Itália em busca de emprego. O resultado é um filme que oscila entre esperas e fluxos, sonolências e acumulações. O terminal é o espaço que une todos esses corpos em trânsito, o lugar onde se espera o momento de não se estar mais ali.

Em La Stazione não há muito senão indícios de um cinema por vir. E talvez seja justo isso que me interesse. Essa busca por gestos frágeis e desesperançosos que desde já se anuncia. Um recorte subjetivo de um espaço certamente múltiplo, mas onde Zurlini encontra poucos sorrisos e muitos olhares perdidos.

Diego Hoefel

Maio de 2013


ISSN 2238-5290