Quando o Amor é Mentira (1955, Valerio Zurlini)

“Em Florença, desde que Robert Taylor apareceu nas telas, os jovens fisicamente dotados, muitas vezes com bigode e sempre com olhos de veludo, em resumo aqueles muito admirados pelas mulheres, foram chamados com o nome genérico e pejorativo de Bob. Esse filme é dedicado a esses coitados, vítimas inocentes de sua própria beleza”.

É essa a cartela inicial de Quando o Amor é Mentira. Ela surge sobre a imagem de Bob cruzando de moto uma larga avenida. O rapaz tem 22 anos, mas finge ter 25. É mecânico, mas se diz piloto. Chama-se Andrea, mas se apresenta como Bob. Tem três, por vezes quatro namoradas, mas faz com que cada uma acredite ser a única. Bob é um mentiroso compulsivo, um jogador de muitas artimanhas, que vão sendo reveladas ao longo do filme.

Mas Bob é, antes de mais nada, uma imitação de Robert Taylor. E é justo essa a primeira informação que temos no filme. Uma ideia que de certa forma se renova a cada vez que alguém chama o jovem por seu apelido. Isso porque Bob não é o diminutivo de Andrea, mas sim de Robert. E esse vão entre um nome e outro guarda uma questão essencial para o filme: a decadência dos processos de auto-idealização.

Aqui certamente existe uma crítica ao cinema americano, ou ao menos à forma como esse cinema é recebido. Bob é nesse sentido um pastiche, uma imagem colonizada que se nutre apenas de aparências. Um homem que mal consegue identificar seus próprios desejos, porque se perde nos mecanismos de defesa que o motivam às constantes mentiras.

E não é de se espantar que o filme vá aos poucos se encaminhando para um cruzamento desajeitado entre as muitas mulheres de Bob. O rapaz vai perdendo o controle de suas relações e quando menos espera acaba não podendo escapar de um noivado. A festa é invadida por um pai furioso acompanhado de uma das namoradas que havia sido deixada de lado. Ali, exposto à futura esposa, à família, aos amigos, Bob decide partir. Sua vaidade não permitia que ele assumisse qualquer culpa.

A fuga de Bob é no entanto impedida por seus irmãos. Ele volta para casa levando chutes na bunda e tapas na orelha. Os pontapés e as bofetadas podem ser lidos como um moralismo do filme, uma lição para o personagem que agia descompromissadamente. Acredito no entanto que há no gesto um desprestígio ao herói. Uma ruptura do Bob que imita o ídolo, espécie de decadência do homem galanteador idealizado por Hollywood.

Diego Hoefel

Maio de 2013


ISSN 2238-5290