Zurlini e o tempo do depois

“O tempo do depois não é nem o tempo da razão recobrada nem o tempo do desastre previsto. É o tempo do depois das histórias, o tempo em que se interessa diretamente na matéria sensível em que seus atalhos eram esculpidos entre um objetivo projetado e um objetivo cumprido. Não é o tempo onde se constrói belas frases ou belos projetos para compensar o vazio da espera. É o tempo em que o interesse é na espera em si mesma”

Jacques Rancière

Os velamentos são presenças definitivas no cinema de Valerio Zurlini. Os mais variados afetos velados, conduzidos pela rítmica maestra do cineasta italiano fazem transmitir a sensação de finitude dos cosmos humanos e de que a dor do amor, do sofrimento em si, é parte irredutível da vida. Mas talvez o que seja mais elidido em Zurlini seja aquilo que está ali, explicitado por entre a narrativa sideral de suas obras: o tempo do depois – isso é: o tempo cujo esperar é o motif perturbador de todas aquelas histórias.

Em Verão Violento (Estate Violenta, 1959) o que Zurlini nos propõe para além de uma monumental história de amor ateada à luz do horror da guerra é justamente o peso da espera em si: Carlo (Jean-Louis Trintignant) ao se desviar de todos os compromissos militares, no seu mais íntimo, convive com a “chamada definitiva” do exército italiano, pois ele sabe que um dia os seus truques não servirão mais e ele terá de encarar a realidade do fascismo. Então lhe sucumbe um duplo tormento: o de esperar a amada e o de esperar a guerra, finalmente, explodir em sua fronte. É o peso da tragédia da espera pelo horror e pelo fim. A Moça com a Valise (La ragazza con la valigia, 1961) já antevê o fim do amor platônico de Lorenzo (Jacques Perrin) por uma mulher do mundo, Aida (Claudia Cardinale). Mas o que isso importa? É na espera de descobrir o amor, o afeto enquanto entidade insondável que o filme se torna grandioso. Lorenzo está disposto a ultrapassar o infinito do tempo para que finalmente Aida compreenda a verdadeira razão de sua companhia. É a espera pelo entendimento (por parte dela) do sublime que o alimenta, que o faz perseverar pelo seu destino – e também pelo dela.

Dois Destinos (Cronaca Familiare, 1962) é uma fenda no tempo da dor, e da apreensão da espera em si enquanto legado sanguíneo: dois irmãos que pelos rastros da memória se reencontram e (nos) revelam a história de uma cronaca familiare: da mãe que morre, do irmão mais novo enganado desde o berço, do irmão mais velho enquanto arco de amparo para a tragédia familiar reservada aos olhos temporais – e macabros. O esperar do suplício do afeto (re)descoberto, dos ajustes de conta, da enfermidade, da fé em Deus e da partida eternizante. Mulheres no Front (Le soldatesse, 1965) e as silhuetas femininas à espera de um lugar e de outros corpos a preencherem o “vazio” do deslocamento, dos seres sem pátrias destinados a serem fantoches sexuais dos soldados italianos. A tristeza angular naqueles olhos femininos, olhos de martírio e de vergonha. Já em A Primeira Noite de Tranquilidade (La prima notte di quiete, 1972) é a compreensão da morte como tranqüilidade absoluta (esse primeiro sono em que não se sonha) e a aceitação dos espasmos que o destino propicia.

Mas é com O Deserto dos Tártaros (Il deserto dei tartari, 1976) que Zurlini concebe sua mais extraordinária obra sobre o tempo do depois. A espera em si é aqui ramificada ao buraco negro da vida e das condições temporais. Uma espera que consome de Drogo (Jacques Perrin, outra vez) a vitalidade mais desconhecida, porque o sonho e o pesadelo são os alimentos daquela alma desesperada pelo encontro. Os Tártaros, afinal, o que são? Corpos feéricos? Uma alucinação angustiante? É a espera pelo encontro, pela batalha jamais travada com um inimigo nunca visto – e que talvez jamais tenha existido. Um filme sobre a demência dos sentidos e sobre a fragilidade do corpo e da mente humanas. É nessa composição inconsútil de Drogo que Zurlini radiografa o homem – fraco, influenciável, quimérico, finito e trágico. E também propõe que esse mesmo homem tem sua história e o seu valor inestimável.

Ricardo Lessa Filho

Maio de 2013


ISSN 2238-5290