Aristóteles e O Nome da Rosa

Nota: Como não tive tempo de produzir um novo texto para o site, revi alguns dos outros trabalhos que já tinha realizado e que, talvez, fosse viável expor aqui na seção. O objetivo do texto abaixo foi realizar uma comparação entre as ideias de Aristóteles (e sua própria vida) e o filme O Nome da Rosa (Jean-Jacques Annaud, 1986), baseado na obra literária homônima de Umberto Eco. As críticas são rasas e não buscam grande aprofundamento (o trabalho foi realizado no meu primeiro ano na faculdade). Não pretendo falar do filme em si, logo, quem tiver interesse em maiores informações, coloco como sugestão uma pequena sinopse.

Uma questão que nos fica evidente em diversos pontos do filme é a natureza um tanto aristotélica do monge franciscano William de Baskerville, onde se mostra um ser que valoriza a racionalidade humana, usando os princípios lógicos propostos por Aristóteles. Em algumas passagens do filme podemos comprovar isso: “Não devemos nos deixar influenciar por boatos irracionais sobre o Anticristo (…)” (William dialogando com Adso, mostrando sua clara valorização à racionalidade, ao não acreditar nos boatos até que os possa ele mesmo comprovar. Assim, utiliza métodos de pesquisa sofisticados para que obtenha provas necessárias para chegar à verdade). Em outro momento, Adso se refere a William: “O mestre se fiava em Aristóteles, nos filósofos gregos e em sua notável inteligência lógica”. Para Aristóteles a razão seria a característica mais importante do homem.

Outras semelhanças que podemos notar em William, que nos remete à Aristóteles, são a sua capacidade de debater enquanto passeia (o que nos faz lembrar da escola fundada pelo filósofo, o Liceu, onde tinham o costume de debater enquanto caminhavam) e a coincidência de que, assim como Aristóteles foi chamado à corte de Pela pelo rei Filipe com a missão de educar seu filho Alexandre, William foi incumbido pelo barão de Melk a garantir a educação e o bem-estar de seu filho, Adso de Melk. Notamos ainda a importância que o monge franciscano concebe à natureza, fonte de muitas pesquisas do filósofo, quando diz que “Para comandar a natureza é preciso aprender a obedecê-la”.

Já em relação à época retratada no filme, vemos a forma como pensavam a mulher, a visão que a Igreja tinha acerca do sexo feminino, que foi influenciada pelas idéias de Aristóteles (visão essa que predominou durante a Idade Média, surtindo efeitos certamente danosos). Para Aristóteles, “faltava alguma coisa à mulher. Para ele, a mulher era um homem incompleto” (O Mundo de Sofia, de Jostein Gaarder). No filme, fica clara essa visão da Igreja para com a mulher, que podemos notar em muitos momentos: “Havia alguma coisa de feminino, alguma coisa de diabólico no jovem que morreu. Ele tinha os olhos de uma moça buscando uma relação com o demônio” (Ubertino de Casale, líder espiritual da ordem franciscana, relatando para William e Adso sobre a primeira vítima do mistério no mosteiro); Ubertino se refere ainda à Virgem Maria, onde coloca que “quando uma fêmea, por natureza tão perversa, torna-se sublime por santidade, então ela pode ser o nobre veículo da graça”.

Os escritos de Aristóteles, em sua maioria, eram de proibida leitura na época, sendo inclusive o Segundo livro da Poética de Aristóteles a causa das mortes ocorridas no mosteiro (onde morreram pelo envenenamento de suas páginas). Venâncio, o tradutor de grego, morreu envenenado. Berengar, conhecedor dos livros proibidos, “espiritualmente perigosos”, também morreu envenenado. Encontramos um momento de divergência no filme entre William e o monge beneditino Jorge, onde o segundo afirma que “Um monge não deve rir! Só os tolos riem à toa! (…) O riso é um evento demoníaco que deforma as linhas do rosto e faz os homens parecerem macacos”; o primeiro contrapõe dizendo que “Aristóteles dedicou o Segundo livro da Poética à comédia como instrumento da verdade”. Mais ao final do filme, William questiona a Jorge porque tal obra lhe causa tanto temor, respondendo esse: “Porque é de Aristóteles” e ainda “O riso mata o temor, e sem temor não pode haver fé”.

Em suma, o filme nos mostra uma realidade onde as ideias aristotélicas afrontavam os dogmas religiosos por seu racionalismo crítico. O Nome da Rosa traça, assim, um painel da Idade Média: a questão da Inquisição, o povo pobre e explorado, o poder centralizador da Igreja (que detinha o conhecimento em suas restritas bibliotecas, onde até a maioria dos monges era distanciada de tal sabedoria), a questão do riso, entre diversas outras.

Ana Clara Martins

Julho de 2010


ISSN 2238-5290