Dois Destinos                  (1962, Valerio Zurlini)

Crônica de uma memória de sangue

A evocação de Dois Destinos supõe falar concomitantemente sobre a grandeza do cinema italiano da primeira metade de década de 1960. Retrato sóbrio (e sombrio), contido, velado, doloroso e com paladar de morte e finitude; seus breves títulos de créditos iniciais já falam da importância e do respeito com que eles (Zurlini e o filme em si) assumem a condição de adaptação da obra de Vasco Pratolini, também participante do roteiro – nos créditos finais, por sua vez, Zurlini revela a sua profunda humildade ao inserir como co-autores da obra todos os integrantes de sua equipe técnica e artística, sem assinalar a função concreta de cada um.

Conciso, o filme nos mostra o ano de 1945, em uma lúgubre sala onde se encontra trabalhando Enrico (monumental Marcello Mastroianni), um simples jornalista que receberia uma ligação telefônica que, desde há muito, já sabia que lhe era inevitável, mas que nem por isso faz da dor algo menos dilacerante. A ligação comunica a morte de seu irmão mais novo, Lorenzo (um não menos excepcional Jacques Perrin). O impacto da notícia fará evocar em Enrico uma série de recordações irremediáveis, que se plasmarão como um estalar da memória através da janela que lhe servira como o olhar dessa lembrança – enquanto quadro suplícico e afetivo de sua própria história.

É um filme “pequeno” no que se diz aos possíveis lançamentos narrativos, mas que em seu íntimo guarda a força daquilo que não pode ser maior ou superado: o afeto de sangue, congênito, ineliminável. E como que por entre os corpos que se reencontram e se anseiam na proporção que um é a chave do complemento do outro, Zurlini vai criando uma história de perdão, de serenidade redirecionada à compreensão do afeto perdido por uma separação abrupta e covarde: o mais velho à época ainda uma criança e o mais novo, um bebê recém nascido. Nessa pirâmide o cineasta italiano constrói certa emancipação sobre o tempo: não há sonoridade temporal possível para ajustá-la ao cinema de Zurlini, o tempo em si é extracampo, dispositivo essencialmente cinematográfico e que jamais será permitido ao espectador ver de forma objetiva o que dali escorre no ar, a não ser apenas sentir e conceber a Presença de uma entidade que tudo vela e tudo sente.

Quando começamos a descobrir a frágil personalidade do jovem Lorenzo, a quem o protecionismo sobreposto pelo seu pai adotivo deixará a sua juventude às portas da ruína, e que impossibilitou de convertê-lo em homem da realidade, a languidez física e emocional de Lorenzo não poderá ser mitigada por seu irmão, por mais que pese a força do sangue. Mas ele também tentará viver uma vida própria pelo seu lado: chega-se a casar e ter uma filha – mas ambas jamais nos são mostradas, apenas relatadas com a voz da tristeza. Enrico será o cronista da tentativa mal sucedida desse irmão que não está preparado para a vida, ainda mais em uma Itália que está vivendo o fascismo e as privações da vontade que proporciona uma cultivação amplificada da destruição dentro de um relato em que jamais testemunharemos os instantes da Guerra ou de destruição, senão na vez em que Lorenzo cai enfermo essa miséria se mostrará com toda a sua crueza poética à luz da impossibilidade de Enrico fazer um favor ao seu irmão moribundo que seria comprar uma marmelada de laranja – e aqui Zurlini se utiliza de um signo proustiano (La memoir involontaire): o Biscoito Madeleine, transfigurado ao sabor de uma marmelada e de sua trágica constatação. Ao mesmo tempo que lembra o sabor mais pueril de uma vida, esse alimento também faz lembrar de que tudo relacionado a Lorenzo é finito e já está evaporado ou evaporando-se.

Assim é Dois Destinos: relato comovedor sobre a compreensão da vida finita e do afeto interminável por entre as fendas da memória. O que se guarda no sangue se vasodilata por entre os poros do corpo afetivo e do amor. Zurlini, homem da tristeza e da compreensão do fim, utiliza-se da figura da avó dos dois irmãos para tecer o retrato da reversão mais dolorosa: o ente que se esvai jamais nos abandona, a memória retém seu cunho fantasmagórico e quando Enrico difere suas palavras finais ao irmão no leito de morte, ele o faz numa oração religiosa, na suposição de um desejo desesperado, ou, talvez antes, numa convicção da supervivência (imortalidade?) desse ser desvalido com quem teve de reencontrar (e redimir a si mesmo) numa turva relação nos últimos anos de vida. O último plano do filme quando Lorenzo, quase morto, é colocado na ambulância para as exéquias, Enrico recusa-se a fitá-lo: o olhar da morte já consumiu a ambos os irmãos, assim como a própria Itália fascista.

Ricardo Lessa Filho

Maio de 2013


ISSN 2238-5290