Léon Morin (1961, Jean-Pierre Melville)

O que dolorosamente singulariza o último diálogo de Léon Morin, assim como toda esta obra para a carreira de Melville, é a aceitação crua e contundente de que não há amor possível para a imagem, de que o espírito escapa. O dilaceramento físico a que o diretor frequentemente entrega seus atores homens, aqui transferido para os contornos de um padre – ou do que se obtém de suas sombras alongadas em diversos e expressionistas enquadramentos –, concentra aqui todo o refúgio materialista em que se alicerça o cinema. Belmondo é fragmentado em seu corpo para configurar as incongruências entre a fé do que interpreta e a carnalidade da tela; não por acaso, um dos primeiros planos do diálogo final se dá sobre seus pés, entre as panelas vazias que carrega, suas únicas posses. Pedaços de um corpo que não pode corresponder ao olhar de sua interlocutora apaixonada (Emanuelle Riva), pois é apenas corpo. A tônica bressoniana já ressaltada desta abordagem não se restringe ao tema religioso, mas ao desenvolvimento de perspectiva adotado sobre a dramaticidade de seus atores; eles são como que esvaziados pela mise en scène, soterrados pelas dimensões do espaço que circunscrevem abismos – daí ser a escadaria em que se encerra o filme o maior dos martírios. Eis um sofrimento que não pode ser resolvido enquanto imagem, a colocação de problemas que fendem completamente a estrutura de uma linguagem; por isso os cortes bruscos, os fades inesperados, a constante sensação de que cenas são encerradas antes de seu fim. Melville exercita a cruel observação de uma harmonia impossível, de uma existência que é sempre desfecho, sempre pós-cena. Coisa que acontece com estes cinemas que revelam tudo, assim que a escuridão chega.

Fernando Mendonça

Julho de 2013


ISSN 2238-5290