O Viajante (1974, Abbas Kiarostami)

A infância (esse sonho descalço pela alteridade) em O Viajante nos fala sobre o pólo da ilusão de um pequeno corpo que, desprendido de seu peso desconhecido, decide viajar duma pequena cidade do interior do Irã até a capital do país, Teerã, para assistir um jogo de futebol do seu clube do coração. Uma criança que nos trapos de sua vida sustentada pelo signo da pobreza, se concede a possibilidade de sonhar: juntar algum dinheiro e viajar. Mas mais do que a viagem em si, Kiarostami jamais nos embai: a realidade da miséria naquelas paredes de barro engessadas pelo sol do fundamentalismo, a incompreensão familiar de que uma criança é uma criança e, portanto, seu sonho, sua irresponsabilidade, sua energia somática precisam de espaços para se expandirem e então, fazê-la amadurecer, compreender que o ritual da vida jamais pode ser aniquilado, abortado, senão, apreendida enquanto necessidade rítmica da ontologia e da História. E é por isso que Qassem (Hassan Darabi) corre, sonha tanto: nesses gestos Kiarostami denuncia a necessidade da exteriorização catártica, de ser mais do que o Outro deseja de você, de ser uma entidade do além. A violência da privação do sonho da infância, molestada pela violência do cárcere anti-ilusão, do pathos que nos é introjetado pela fisiognomia de Qassem (um rosto que está sempre sujo, mas jamais dominado) e das outras crianças que ele decide fotografar para angariar recursos para sua viagem: ali reside a genealogia de um povo traçado pela pródiga crença metafísica. Portanto, quando o filme torna-se mudo em seus últimos minutos, ele nos revela (num momento onírico) aquilo que jamais pôde enquanto existiu o som: o fim da ilusão.

Ricardo Lessa Filho

Julho de 2013


ISSN 2238-5290