Amor Pleno (2012, Terrence Malick)

Pela transcendência da pureza e do sagrado

“Quanto mais longe no tempo se encontra um desejo, tanto mais se pode esperar sua realização. Mas o que o leva longe no tempo é a experiência, que o completa e o articula. Por isso o desejo realizado é a coroa reservada à experiência. No simbolismo dos povos, a distância espacial pode ocupar o lugar da distância temporal; por isso a estrela cadente, que se precipita na infinita lonjura do espaço, converte-se no símbolo do desejo realizado.”

Walter Benjamin

Há em Amor Pleno a abundância fragmentada do tempo e do desejo, não como um confronto de duas entidades que, na entropia temporal se autodestruirão pela colisão inevitável, mas enquanto símbolos cósmicos e estetizantes do imago de seu realizador. Há o cadavérico que fareja o corpo de Malick, de sua vida próxima à extinção, e talvez seja por isso que o cineasta tenha punido o colossal hiato entre um filme e outro, e, principalmente, homologado uma imensa perspectiva da catarse metafísica: o corpo (do cineasta, de seus personagens), então, será devorado, transformado em cadáver, mas o que se mantém na linha à altura da aura é a ânsia plural da transcendência – em Amor Pleno, re-significado pelo perdão: do Padre melancólico (Javier Bardém) tentando compreender a invisibilidade divina, e do homem (Ben Affleck) igualmente meditabundo, buscando o perdão pelo (e no) amor de duas mulheres.

Esse perdão rarefactu é, na vera, o desejo em metamorfose sentimental, e por estar neste estado de ação contínua é que Malick revisa todos os dispositivos estéticos que lhe são caríssimos: a câmera que flutua em busca das fagulhas somáticas dos personagens, a luz natural que encadeia as silhuetas vaporosas, a flora em espaços extraordinários para a absorção imagética. Mas se Amor Pleno também busca uma metafísica exemplar, vai, de algum modo, numa perspectiva reversa naquela encontrada em Árvore da Vida: o primeiro está enraizado na flor da terra, no ato da carne, do perdão da vida presente – lembremos de como o personagem de Affleck ajoelha-se diante da mulher, dividindo ali uma segunda chance do amor pelo signo do perdão. O segundo massifica a necessidade (e a incompreensão) de divindade pelo olhar da infância, de que a apreensão do todo só se dará por Ele, e por tanto, a travessia do plano torna-se algo irreversível, sobretudo no modo como o cineasta explora a sua visão da cosmogênese da fé e da revelação do sagrado.

Paul Schrader em seu clássico artigo de 1972 intitulado Transcendental Style In Film, escolheu como objeto de estudo a obra de Dreyer, Ozu e Bresson para posicionar as estratégias formais que permitiram a tríade de cineastas expressarem aquilo que de mais profundo os tornavam uma única genealogia: a revelação do sagrado. Diante da síntese e ascetismo de Ozu, Dreyer e Bresson, Malick parece percorrer ao seu modo (e ao seu tempo) um barroquismo místico da compreensão da fé, cujo caminho, para todos os homens verdadeiramente qualificados a tal exigência, terá de ser austero, enrijecido, perdido numa melancolia transitória entre o espaço-tempo divino e também terreno.

Malick, mais do que nunca é, hoje, um militante da imagem sacra, num tempo aonde toda imagem parece ter perdido a sua pureza, vampirizada por retóricas publicitárias e outros dispositivos parasitas, ilhando-o a uma espécie de paraíso perdido da imagem em projeção. E pela acepção particular da palavra (e os textos por entre a fantasmagoria dos corpos e dos objetos, aqui, me remetera à Marguerite Duras seja pela rítmica, seja pelo afeto transbordante) e pelo que a sua análise pode nos oferecer em relação a inúmeras noções de cinema que estão em jogo (percepção, afeição, ação, etc).

E se na epígrafe Benjamin nos fala que apesar do trovejante poder do desejo*, o que realmente o leva longe é o tempo e a experiência em si (ou seja, a durée e a fé enquanto potencializadoras da alma), a hermenêutica malickiana corrobora com o filósofo alemão, e é por isso que o solilóquio narrativo-textual de Amor Pleno nos transporta por esse desejo cadente cujo “tempo contido no instante em que a luz da estrela cadente brilha para o olho humano [...] É a antítese do tempo infernal no qual transcorre a existência daqueles a quem não é dado chegar a concluir coisa alguma do que começaram”**. Coisa alguma do que começaram. Malick, no estágio final de sua vida, no tormento cadavérico de seu corpo, parece ansiar por uma conclusão definitiva sobre algo essencialmente abstrato: a revelação do sagrado, do fantasma da história cristã judaica, do homem crente que, a todo custo, terá de elevar o seu espírito à dimensão suprema para poder fazer os gestos finais da existência: perdoar e ser perdoado.

*Adorno dizia que Benjamin era, sobretudo, um crítico do gênio humano, cuja alma estava perdida num marxismo melancólico. Enquanto alegoria poderíamos analisar Terrence Malick sob um mesmo prisma afetivo: o cineasta americano também é um melancólico “perdido”, mas não num marxismo, mas ante, num humanismo com fortes resquícios heideggerianos.

**Walter Benjamin

Ricardo Lessa Filho

Julho de 2013


ISSN 2238-5290