Corações Desesperados (1966, Jules Dassin)

Quando o que dói são as palavras, quando já não se cabe direito no próprio corpo e tudo em que se pode agarrar é a pele do Outro; este é o desespero filmado por Dassin a partir do romance de Marguerite Duras (Dez Horas e Meia Numa Noite de Verão), roteirizado pela autora. Crise típica destas letras, mas também de toda uma fase conturbada para o cineasta, o triângulo romântico do enredo é destes que ultrapassam as dimensões de uma cama, que não consegue a saciedade se é o próprio desejo o seu alimento e motivo de ser. Mais do que procurar o amor na obsessiva retomada de filmes com sua esposa no papel protagonista (Melina Mercouri), o que Dassin faz aqui é desistir de uma busca, ou reposicioná-la, resignando-se a uma condição incontornável de partilha e aceitação de que não vivemos para nós mesmos, de que não encontramos em nós a resolução da existência. E se o Outro não acode, o que pode restar? Esta mulher que entrega o marido nos braços da amante, que também deseja o outro vértice da pirâmide, a despeito da coincidência de sexos, é cruelmente infiltrada numa sobreposição abstrata de planos, onde a transa dos entes amados já não se define pelo foco exato do que registra, mas pelo efeito aglutinador das peles nuas. Eis a posição de um artista que também entregou sua obra ao caos, que precisou se destruir para de alguma forma reencontrar a própria voz, ou os ecos que dela sobraram. Nenhuma pressa para rejeitar o Dassin sessentista, mas alguma consideração por sua dor, pois é isto o que faz nascer a arte; em muitos casos, o que justifica as palavras, as imagens e toda uma observação do mundo. Afinal, filmar é humano.

Fernando Mendonça

Julho de 2013


ISSN 2238-5290