Terra de Ninguém (1973, Terrence Malick)

Rever Terra de Ninguém e a constatação do isolamento do corpo: crônica negra sobre a desesperança, a inadaptação e a busca da liberdade através das áridas terras e do céu azul de Dakota. Lâmina que Malick difere como insinuação, em que o visual, ou seja, o olhar ou o gesto, precedem a palavra. Universo rural que a câmera capta quase como o olhar de um entomólogo, pois não somente pesquisa os rostos, as mãos ou os pequenos detalhes que rodeiam os personagens, mas aquilo que se adentra na própria natureza, o terceiro grande protagonista do filme, símbolo de liberdade, porém também de hostilidade. É o homem frente a imensidão da mesma: primeiríssimos planos de plantas ou animais se combinam com grandes panorâmicas e entardeceres sobre as “badlands” que dão o título do filme, aonde em muitos instantes as silhuetas de Spacek são um elemento a mais dentro da magnitude da paisagem. Sheen enquanto Dean (de Giant): solitário, órfão de pais, fantasmagórico num mundo sem paredes, pilastras, condenado ao confrontamento camusiano: o absurdo do mundo como Quimera (próprio de uma vida que se esvaiu ao longo do tempo e a mercê da sorte), sobre o eflúvio do tempo perdido – e, por ser passado, do não-retorno, da não-vida captada, transfigurada pelas mortes fúteis, pelo fim de tudo, pela própria morte do corpo, pelo fim, de tudo, de novo.

Ricardo Lessa Filho

Julho de 2013


ISSN 2238-5290