Antes da Meia-Noite (2013, Richard Linklater)

Pouco antes de sair de casa fui me olhar no espelho. Pentear o cabelo, ver se estava tudo certo para ganhar as ruas e me dirigir ao cinema. O sorriso, inevitável, era daqueles que se formam ante a perspectiva de um reencontro, cheio de saudade, contente em saber que satisfaria o sentimento. Nove anos são uma vida, convenhamos. E é deste movimento além da tela, advindo do retorno ao universo de Jesse e Celine, em outro episódio da experiência mais radical sobre o Tempo no cinema americano contemporâneo, que se alimenta a expectativa de uma sessão de Before Midnight. Certamente, a reação de alguém que assista ao novo trabalho de Richard Linklater sem ter vivenciado a pausa destes nove anos (que já são dezoito, em relação ao primeiro filme), não será igual à de quem passou pelo tempo, de quem se viu envelhecendo junto com Ethan Hawke e Julie Delpy. Por isso assumo logo a minha voz, pois escrever sobre um filme destes não é resenhar uma crítica, mas preencher mais uma página no diário da existência.

Atravessados os dezoito anos de seu primeiro encontro, Jesse e Celine estão prontos para enfrentar a maioridade de uma relação. É disto que nos convencemos desde o início de Midnight, ao descobrirmos que eles se entregaram a um compromisso estável, que os filhos vieram, e todo aquele amor quase impossível do filme anterior foi concretizado sem precisar de imagens que cobrissem a plenitude de sua transformação. Mais do que nos outros encontros, Linklater agora se debruça com afinco sobre o que não se pode ver de uma relação amorosa, sobre os pedaços da vida que não se materializam na tela, mas se escondem nas páginas arrancadas de um calendário. Não por acaso, logo no primeiro diálogo do casal, os acompanhamos num trajeto de carro que passa por determinada região da Grécia cheia de ruínas, ruínas que não vemos e não são mostradas aos filhos adormecidos no banco traseiro, ainda que fosse uma parte prometida do passeio para as crianças. Mas a pressa (sempre o tempo) de chegar em casa e descansar, impede a parada, barra a nossa visão. Se a própria localização geográfica de Midnight já significa muito do atual estado de amor dos nossos protagonistas, esta formação do extracampo pelo diálogo introdutório de Jesse e Celine é o que determina toda uma condição não apenas para sua relação íntima, mas para a maneira como eles passam a se relacionar com seus espectadores.

Além de respeitar toda uma coerência interna aos personagens, do que muda e permanece no caráter de vidas aliançadas, Linklater se demonstra consciente de um tempo que primeiramente diz respeito ao próprio cinema, ao contexto do que se produz e reflete na atualidade. Before Midnight, por exemplo, trata-se claramente de um exercício criativo pós-Copie Conforme; a dimensão de seus diálogos, que resgata o estilo dos primeiros encontros de Jesse e Celine, também denota uma nova compreensão do sentido narrativo, calcada no que foi recentemente explorado por Kiarostami, em sua homenagem a um Rossellini que, inclusive, é citado diretamente em Midnight – Jesse fala sobre um filme que é todo dedicado a retratar um casal que conversa enquanto visita as ruínas gregas, obviamente trata-se de Viaggio in Italia. Traça-se assim toda uma genealogia do neorrealismo, perspectiva que mais do que nunca orienta boa parte do que hoje se produz no cinema, seja documental ou de ficção, seja nesta fronteira dos gêneros que insiste em ser borrada, justamente por filmes como Midnight. A realidade lapidada por Linklater, nunca é demais repetir, torna-se singularizada por aquilo que não cabe dentro de seus filmes, pelo que ele trabalha do passado na imaginação para assim nos aproximar ainda mais. Pois todos temos aqueles momentos que ninguém vê, que nem mesmo nós notamos a passagem. O rigor de Linklater é potencializar a identificação destes tempos, mantendo sua invisibilidade. Por isso é apressado afirmar que seus filmes invadem a privacidade de uma relação, se é o contrário, é no respeito do ocultamento que eles se constroem.

Se Before Midnight ganha a forma mais triste da trilogia agora concluída (mas que insisto em sonhar como não encerrada) é porque cabe a ele a parte mais solitária do dia, o momento em que as formas desaparecem, a escuridão toma lugar e nem mesmo os espelhos conseguem ser mais enxergados. Eis um filme sobre o vazio que o amor também gera, sobre o outro lado da expectativa. Daí a cena do crepúsculo, o pôr-do-sol anunciado nove anos atrás, ser destas em que a melancolia nos impregna. Nada mais comum. Pois, quem nunca experimentou a beleza que traz o sol em sua despedida? A dor que a acompanha? Linklater alcança a proeza de realizar, com extrema simplicidade, a permanência deste adeus, do momento em que a luz se esconde atrás do horizonte, fazendo-nos conscientes de sua rotina sem impedir o silêncio restante, a convicção de que continuamos à mercê de um futuro incerto, assombroso. Pois é daí que vêm os fantasmas de Linklater: do que ainda virá, da abertura que todos os seus desfechos irrompem. O que mais dói, novamente, não é o vazio dos planos sem corpos – a cama de hotel em que eles não transaram, as taças de vinho que não foram bebidas –, a dor vem do que não veremos, do que não será materializado nos nove anos por vir.

Ao descrever o projeto de um futuro livro, Jesse comenta o intento de um enredo com uma personagem em perpétuo estado de déjà vu, como numa espécie de Marienbad, como se pudesse me ver ao sair da sala de cinema, com a mesma sensação de há nove anos, o mesmo agridoce na boca. Saí da sessão com o sorriso desfeito, a saudade a revisitar-me. Mas com a esperança de que Jesse e Celine ainda veriam outro amanhã, de que eu estava vivo. Assim que cheguei em casa fui me olhar no espelho. Não me surpreendi: eram eles ali, refletidos.

Fernando Mendonça

Agosto de 2013


ISSN 2238-5290